O que pensava Fernando Pessoa da República…

… Não é algo que, compreensivelmente, costume ser reproduzido pelas instituições políticas e culturais (incluindo a «casa» que tem o seu nome) de um regime que, no último século, também o consagrou – justamente – como o mais importante, o mais influente escritor da modernidade portuguesa. Porém, um dia depois do começo da «celebração» (sem vergonha) dos cem anos em que a Monarquia – maioritariamente democrática – foi derrubada pela República – fundamentalmente ditatorial – sob apelos (sim, fascizantes) de «união nacional», e no dia em que passa mais um ano sobre o duplo homicídio que outro tipo de celerados insiste em festejar, convém recordar as certeiras palavras do poeta.

O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a República é que não estava. Grandes são as virtudes (de) coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos, de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a Monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A Monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado — todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A Monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a República que veio multiplicou por qualquer coisa - concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) - os escândalos financeiros da Monarquia.
A Monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A República veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da Monarquia, estava ela, a Monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a República, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A Monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a República instituiu a desordem múltipla.
É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira , não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na Monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na República não era possível, porque era perigoso insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.
O sociólogo pode reconhecer que a vinda da República teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas coisas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma causa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.
Este regime é uma conspurcação espiritual. A Monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a República veio (a) ser.

Quem ainda se lembra deles????????????????????????????

http://www.youtube.com/watch?v=v8u5qyn0Zzk&feature=related

O homem por detrás do espelho

Antes foi o coração em «Eat Me Drink Me», os dois «M» estilizados (segundo a estética nacional-socialista?) em «The Golden Age Of Grotesque», o símbolo «lunar/masculino/sacrificial» em «Holy Wood», o comprimido em «Mechanical Animals», o relâmpago/«sinal de perigo eléctrico» em «AntiChrist Superstar», o chapéu em «Smells Like Children»…
Agora, a imagem estampada no seu mais recente disco, «The High End Of Low», é muito significativamente, uma bobina – que, presume-se, quando dentro de um (ligado) leitor de CD’s, «desenrolará» o filme, ou um dos filmes, da sua vida… E a «sequência», ou seja, a canção, mais importante deste «filme» é «I Want To Kill You Like They Do In The Movies», nove torturantes minutos em que um desvairado «realizador» descreve aquilo que pretende fazer à sua «actriz» principal: «Eu quero foder-te como num filme estrangeiro, e não existem legendas para te ajudar enquanto ele durar. (…) Alinhem, rolar câmara, tu finges, eu finjo, e corta, corta, corta, corta. (…) Eu quero matar-te como eles fazem nos filmes, mas não te preocupes, existe outra como tu, à espera na fila. (…)»
Será este, na verdade, o canto despeitado de um homem que se viu abandonado pela sua amante… ou seja, Evan Rachel Wood? Pouco menos de dois anos antes, em 2007, a situação era diferente… e semelhante: em processo de separação e de divórcio da dançarina e modelo «burlesca» Dita Von Teese (nome artístico de… Heather Sweet!), Marilyn Manson aceitou ser «cobaia» de James Cameron em mais uma experiência do realizador com o sistema 3D que ele já estava a utilizar em «Avatar»: a rodagem do vídeo para a canção «Heart Shaped Glasses» proporcionou várias referências a «Lolita» de Vladimir Nabokov… e de Stanley Kubrick, e também muitas cenas de sexo tórridas (há quem diga que foram mesmo explícitas) entre o gótico cantor e aquela que era então a sua «musa». Wood tem-se destacado enquanto intérprete, entre outros filmes, de «Running With Scissors», «Across The Universe» e «The Wrestler»; e a própria Teese também já está a construir um interessante currículo na sétima arte, com personificações de Gala Dali e de… Mata-Hari!
Para Brian Warner, a sua (muito forte) ligação ao cinema começou, como se sabe, na escolha que fez do seu nome artístico: «Marilyn» de Marilyn Monroe e «Manson» de Charles Manson – psicopata que ficou famoso por ter assassinado, entre outros e nomeadamente, Sharon Tate… (outra) actriz que era então a esposa, grávida, de Roman Polanski… Nascido no Ohio e crescido na Flórida, o cada vez mais confiante «God Of Fuck» acabaria por se instalar, quase naturalmente, na Califórnia… aparentemente por causa de Rose McGowan, actriz que se viria a notabilizar mais recentemente em «Death Proof»/«Planet Terror» de Quentin Tarantino/Robert Rodriguez. Então noivos, em 1999 Rose terá possibilitado a MM um dos seus primeiros (pequenos) papéis – fazendo de «estranho» - num filme onde ela era uma das protagonistas: «Jawbreaker», de Darren Stein. Manson foi também: «estrela porno» em «Lost Highway» de David Lynch; «Christina» em «Party Monster» de Fenton Bailey e Randy Barbato – encarnando uma das muitas figuras excêntricas que de facto assombraram a cena clubística nova-iorquina na viragem dos anos 80 para os 90; «Jackson» (um pedófilo) em «The Heart Is Deceitful Above All Things» de Asia Argento; «empregado de bar» em «Rise» de Sebastian Gutierrez.
Entretanto, as suas canções integraram, entre outras, as bandas sonoras dos filmes «Natural Born Killers» («Cyclops»), «Strange Days» («Get Your Gun»), «Lost Highway» («Apple Of Sodom»), «Private Parts» («The Suck For Your Solution»), «Spawn» («Long Hard Road Out Of Hell»), «The Matrix» («Rock Is Dead»), «Book Of Shadows: Blair Witch 2» («Disposable Teens»), «Valentine» («Valentine’s Day»), «From Hell» («The Nobodies»), «Bowling For Columbine» («The Fight Song»), «Saw II» («Irresponsible Hate Anthem») e «Hatchet» («This Is The New Shit»). E colaborou com Marco Beltrami na música original de «Resident Evil».
Embora importantes, todos estes créditos serão cinematograficamente insignificantes se Marilyn Manson finalmente concretizar - depois de escrever, produzir, realizar, interpretar e musicar – o seu maior projecto artístico «não rock & roll»: «Phantasmagoria – The Visions Of Lewis Carroll», um filme que tem por tema a vida e a obra do autor de «Alice no País das Maravilhas», anunciado desde 2005 e sucessivamente adiado, (ainda?) com Lily Cole (modelo e actriz inglesa) no elenco, e que de momento tem 2010 como data prevista de lançamento… Porém, e para complicar mais a situação, este ano foi noticiado que MM estaria a preparar outro filme: uma «versão musical» de «Cinderella» que seria protagonizada por… Emma Watson – sim, a Hermione Granger da saga «Harry Potter»!
Evan, Lily, Emma… cada uma das três tem perto de 20 anos. Afinal, talvez seja «Beauty And The Beast», e não «Willy Wonka And The Chocolate Factory», o filme favorito de Brian Warner.

MM na SS
Marilyn Manson é um artista cuja totalidade da obra (isto é, álbuns de originais, não incluindo compilações e registos ao vivo) está incluído na Simetria Sonora, projecto desenvolvido na Simetria/Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico e que tem como objectivo procurar, identificar, listar e divulgar discos cuja temática se insere, precisamente, no âmbito da FC & F…. porque esta área não tem de se restringir à literatura e ao cinema.
Iniciativa original e provavelmente única, quer nacional quer internacionalmente, a Simetria Sonora contém actualmente 200 discos, tanto de artistas estrangeiros (em número superior) como de artistas portugueses, cujos «temas (na sua totalidade, maioria ou até numa minoria significativa e preponderante), os sons, as suas letras, a ideia-chave ou o conceito principal – incluindo gráfico e audiovisual (capa, livrete, vídeos) – os colocarem num “género” que poderíamos designar de ficção científica e fantástico; e que pode incluir, além de futurologias diversas e de revisionismos históricos variados, o bizarro, a fantasia, o terror, o horror… Ou nem tanto: contos de fadas, estados alterados, sonhos e pesadelos, realidades alternativas ao estilo “Quinta Dimensão”.»
Enfim, um «espectáculo» em que o cantor de «If I Was Your Vampire» é sem dúvida uma das maiores «atracções».

Marilyn Manson, ou seja, Brian Hugh Warner, celebra hoje o seu 41º aniversário.

Artigo publicado na revista Blitz Nº 42, 2009/12.

Octávio dos Santos

Na edição de hoje do Correio da Manhã…

… Uma «viagem» na História de Portugal, mais concretamente ao século XVIII, mais especificamente à Lisboa de antes do terramoto de 1755.

Carta a um filho

Ano novo vida nova, enterrem-se os fantasmas, desenterrem-se projectos novos, eu escrevo uma carta que se Deus assim o permitir, irá ser o enterrar de um ciclo e começo de uma nova vida….

Claro está:

“Se Deus assim o permitir…” 

Carta a um filho. 

Meu querido filho, faz muito tempo que não me memoriava de ti nem das nossas folganças.

O pai não o faz por mal mas o tempo tudo dissipa. E a memória que de ti tenho, meu filho, é infelizmente cada vez menos nítida.

Não sei se és alto ou baixo, até porque pequenino nunca te conheci.

E quais os primeiros vocábulos que pronuncias-te, nem tão pouco se alguma vez a mim me foram dirigidos.

Também não sei se foste amamentado, ou artificialmente nutrido.

Mas sei que és invariavelmente um anjo porque todas as noites foram inalteravelmente serenas.

Sabes…sempre seguro pensei que aprenderias a locomover-te na praia, mas pensando bem não tenho ideia de alguma vez te ver por lá.

Mas tenho boa lembrança da burra que, um dia, te prometi comprar. Mas não já não tenho ideia de alguma vez ta dar.

Apesar de tudo sei que foste um aluno ordeiro porque queixas não tive.

Mas não sei se finalizaste o liceu, até porque nunca te registei.

E mesmo que o tivesse que fazer não sei com que apelido o faria. Até porque também nunca, em algum dia, soube qual te dar.

Só sei que não sou teu herói, porque feitos não fiz. Mas já não tenho tão clara ideia das nossas semelhanças físicas.

Mas sei que terei sempre pronta uma prenda para te oferecer. Mas sei que em nenhum dia, te vou alguma vez ver.

E isto tudo meu filhinho, não é pela falta de amor de teu pai, juro-te, mas apenas e tão só porquanto nunca tu nasceste!

Leituras «simétricas»

No sítio da Simetria/Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, e para além do projecto permanente Simetria Sonora, pode-se contar desde Novembro com mais uma colaboração regular da minha parte – sob a forma de (pequenos) textos abordando novidades… e curiosidades relacionadas com a FC & F. Até agora quatro foram inseridos, sobre: a estreia de «Avatar»; as origens dos títulos de alguns livros conhecidos; «efemérides cinematográficas» deste ano; e alguns recentes factos científico-tecnológicos… que mais parecem FC.

Ela dorme com cuecas de homem!

Ela vai para o quarto dele, exausta de si.

Ela vai, não sabe ele porquê, se apenas é para dormir com as suas cuecas de homem, sem saber porque o faz. Mesmo sem saber porque não o toca.

E ele sofre, pois ela não está morta e sabe que um dia ela se vai embora. 

Ela vai-se, ela vai-se! -  diz ele- E vai para ir para a cama de mais alguém,  só para dormir com outras cuecas de homem!

Pelo que por cuidado, sabendo ele que ela não está morta, diz-lhe em desespero -foge por favor, foge para longe de mim!

O BARRASCO – Escrita com bolinha quando necessário - Ou seja sempre!-2

Casamento Gay um ataque deliberado à classe trabalhadora do nosso país. 

Pois é meus amigos, hoje escreve-se por aqui acerca do matrimónio gay.

Não me sobrevém dizer nada acerca desse assunto, tal a pouca consideração que tal facto para mim representa, e até para o país creio eu, a não ser que se queira transformar Portugal numa referência no turismo homossexual, e até vos digo mais meus amigos, se tal facto ajudar a afastar Portugal da crise até acho que Algarve que agora se chama Allgarve deverá passar a cognominar-se Allgayve. Quero lá saber!

Como já referi e reitero uma vez mais, quero lá saber se casam ou não, embora, porque como ser pensante que sou, me venham à razão algumas vagas ponderações a esse respeito:

Querem casar? Casem-se!

Querem comer-se? Comam-se!

Querem enforcar-se? Que se enforquem!

Quero lá saber!  Quero lá saber!

O P.S. quis legislar ainda este ano sobre matéria para oferecer uma prenda à esquerda caviar que incessantemente esperou por este momento. Que legisle! Que ofereça!

Querem alterar as faixas de rodagem de modo a que iniciemos uma condução do tipo “anglicizes”? Que troquem!

O P.S. espera assim conquistar votos da comunidade gay, uma vez que à comunidade hetero não tem mais nada a oferecer senão desemprego. Que conquiste!

Repito, quero lá saber!

Querem criar um número mínimo de lugares para deputados na assembleia da república que representem a comunidade gay? Que criem! Embora ache que até já são maioria!

Querem aumentar o IVA em um ponto percentual de modo a que essas receitas sirvam para apoiar a excluída comunidade gay? Que o façam! Eu pago!

Quero lá saber! Redobro, quero lá saber!

Mas o que me preocupa é que se todos estes liberalismos tenham o condão de metamorfosear o nosso Estado Católico num Estado efectivamente laico.

Isso é que não!!!

É que meus amigos, esse facto aparentemente inocente é gravíssimo para a vida dos portugueses!

E digo-vos porquê:

Se persistirem na transformação do nosso estado, num moderno estado laico de direito corremos sérios riscos de ficar quase sem feriados. Note-se que, quase todos os feriados têm origem canónica, pelo que laicizar o nosso querido País tem apenas um exclusivo e elementar propósito, beneficiar o patronato, consistindo este plano congeminado pelo Governo num ataque deliberado ao proletariado e aos seus interesses constitucionalmente garantidos.

É este o grande plano do Partido Socialista! daí a “estranha” urgência em aprovar o casamento gay!

Pelo que em conclusão vos digo que, mesmo os rapazolas gay e as rapariguitas lésbicas conhecendo a verdadeira motivação que levou à aquiescência governamental do seu matrimónio, votariam conta o casamento gay em caso de referendo, pois não quereriam de certeza correr o risco de ficar sem os seus “santos” feriados.

Ahhhhhhh, pois é!!!!!!

O Barrasco

Propaganda de Natal

Para aqueles que se estripam no Natal e outros saudosistas vítimas do “marquetingue” nacional.

http://www.youtube.com/watch?v=bHLgx7LSXmc

Para ouvir pelo menos 10 vezes….

O BARRASCO – Escrita com bolinha quando necessário - Ou seja sempre!

 Antes de consumar com a minha delicada prosa o apego neste espaço de tertúlia de alguns dos meus mais inflamados pensamentos sobre o que quer que seja, e também de alguns confessadamente inapropriados e que só demonstram a minha péssima índole pessoal (mas que se lixe, desde que isso sirva para realizar a minha catarse pessoal) ainda assim como gajo educado que sou, devo aos restantes companheiros deste espaço literário, a minha apresentação pessoal. Até porque os fulanos que por aqui escrevem não aparentam mas são pessoas importantes. Aliás graças a alguns deles já se aniquilaram umas quantas árvores e outros ainda até têm os seus translúcidos tributos fiscais em dia, o que face ao que se vê por aí, é uma coisa do arco-da-velha. Mas acreditem ou não, fui convidado não por ser o “chefe” de um dos insignes que por aqui escreve, mas antes pelo meu talento com as coisas das letras, disse-me o lustrador que comigo labora, mas na verdade com ou sem vocação para escrever, lá aceitei a chamada e cá estou eu a prosar para todos vós. 

Abraço apertado a todos. 

BOM DIA NATAL 

Como entoou o Reininho, efectivamente quando um gajo está bem, que é como quem diz, numa esplanada junto ao mar num amanhecer de domingo sem fazer puto, munido da superior arma que o comum dos mortais pode ter, não me refiro a uma 6,35 mm, semi-automática, mas antes com uma Mont Blanc, High Edition, ofertada pelo Sr. Orlando e de um Moleskine ainda com folhas por rabiscar, até acha piada às pulgas dos cães e ao riso das crianças dos outros. Que maravilha, enquanto dedilho harmoniosamente com a minha confortável caneta algumas letras no bloco de notas, o sol vai mimando-me com algum do seu calor, como que prepara-me para tempos mais frios que imperativamente mas de forma ordeira espreitam a norte, a oportunidade de nos gelarem. No entanto embora a soalheira do astro-rei me acalore o corpo e alma, ainda assim o meu físico está em tremor, pois sofre ansiosamente pela urgente reposição matinal de nicotina juntamente com o agradável aroma que emana a primeira cafeína do dia. Enquanto aguardo a chegada do Salvador, o empregado de mesa com o seu imponente uniforme, a meu ver de super herói, que todos os domingos teima em satisfazer a minha veemente necessidade matinal de me demarcar da minha noite de ilusão, como Reininho, escuto a conversa dos outros e ainda vejo cágados de perna para o ar.E quando já encolerizava o facto de ainda não me ter sido ministrado o meu dulcificado cafezinho, eis que chega Salvador.

- Bom dia Salvador, queria um café por favor! – Requeri eu com o mais encantador sorriso que ao meu semblante é permitido.

- Bom dia não, boa tarde! – Disse-me ele como se estivesse a censurar um qualquer aparte profundo e ordinário da minha parte, como se o facto de eu lhe ter desejado um bom dia ao meio dia e cinco minutos, consistisse numa enorme e profunda lesão da sua honorabilidade pessoal.Se existe coisa que odeio é precisamente esse reparo, tal facto para além de me irritar estragou-me o momento semanal que mais anseio e a prosa que havia decidido lavrar. Mas não era o momento ideal para exercer o contraditório, afinal formalmente ele tinha razão, já passava do meio-dia, e embora pudesse fazer um qualquer reparo ao Salvador pelo facto de achar que havia sido terrivelmente desagradável, eu não podia arriscar, queria mesmo beber o café!Pelo que aguardei a ocasião de o fazer para mais tarde…

Após tomar o meu café que, como se fosse um fadista, foi à guitarra magnificamente acompanhado por um cigarro, perguntei ao Salvador:

- Por favor quanto lhe devo?

- Setenta e cinco cêntimos Sr. Dr. – Respondeu-me ele ainda com aquele superior sorrir sobrevindo do facto de ter remendado o meu bom dia cinco minutos desajustado.Argutamente, sorrindo aparentemente com sinceridade coloquei uma nota de cinco euros sobre a bandeja, e disse-lhe:

- Salvador o troco é todo para si!

Esperando então a sua normal reacção face à actual quadra natalícia que atravessamos…

- Ó Sr. Dr., um santo e feliz  natal, para si e para os seus.

Rindo-me com bastante desdém e realizando finalmente através dele como que a minha purgação face a já outros tantos emendadores de bons dias que me arruinaram o dia, respondi-lhe com ar já quase aliviado… 

- Salvador, já estamos no dia 25 de Dezembro? – Não? – Então vá para o caralho!

UMA NADA ÉPICA HISTÓRIA DE NATAL, ANTES QUASE QUE ADAPTADA

  Intróito: Era uma vez, um menino que passava a vida a mentir, não caros leitores não falo de mim, pois seria uma história bem mais longa, mas antes do célebre menino que estava sempre a pregar petas, sobre ataques de lobos, lá na aldeia onde vivia, por isso, obviamente, já ninguém lhe abonava qualquer verdade que fosse. Atenção, para que esta história seja verosímil e não uma mão cheia de patranhas, faço desde já assinalar que a aldeia é situada no norte da Europa ainda antes do aquecimento global e da saturante humanização. Por isso em redor da aldeia existiam campos de cultivo, florestas e claro que nesta história tinham que existir também lobos. Abandonando o intróito e entrando na história, diga-se em abono da verdade que o menino mentiroso era constantemente irritante, passando o dia a gritar: “ Fujam, corram, vêm aí os lobos!”, pelo que se bem que conseguiu assustar os seus conterrâneos aldeões durante os primeiros tempos, com o correr dos tempos e habituação, os seus gritos e mentirolas já ninguém assustava. Antes de acabar com esta já longa introdução, atente-se que tal como refere o título, esta é uma história de Natal, pelo que acção desenvolve-se no dia 24 de Dezembro de um qualquer ano envelhecido.           

Acto I – O ataque dos lobos: Era uma vez, pela segunda vez, um menino que andava a brincar nos arrabaldes da aldeia, até que viu que estava a ser cercado por uma alcateia de lobos, pelo que em pujança máxima vocal gritou: “ Socorro, os lobos estão atacar-me!”. Mas habituados que estavam os aldeões das diabruras da criatura, fizeram-lhe todos ouvidos moucos, não prestando qualquer atenção ao aviso de alerta, pelo contrário, alguns dos seus concidadãos, fartos de tanta partida fadita daquele menino desajustado, até verbalizaram que se os lobos o comessem, seria um óptimo natal para todos. 

Acto II – A estrela decadente: Os lobos cercavam o menino, o odor a sangue em decomposição proveniente dos focinhos das criaturas caninas já era sentido pela pobre criança, o alfa da alcateia, destacando-se dos outros, já dava a ordem de ataque aos restantes, mas eis que, do céu surge um enorme clarão, que prende totalmente a atenção de toda a alcateia que segue atenta a trajectória da estrela decadente (decadente porque pouco original numa história de Natal). Mas continuando, agora sem grandes reparos adicionais, os lobos seguiam atentamente como que hipnotizados o corpo celeste decadente, abstraindo-se do menino, que estavam prontos atacar. Claro que estão a pensar, o menino vai aproveita-ser da distracção dos lobos para se escapar. Mas esta não é uma história qualquer, claro que também ele ficou a olhar para aquele fenómeno caduco, pois coisas daquelas não se vêm todos os dias. Pelo que todos miraram bem atentos o tal astro decrépito, até ele cair bem no centro da aldeia. 

Acto III – O momento científico: O estudo da composição química dos cometas é especialmente importante porque se acredita que estes transportam espécies bem preservadas do material a partir do qual o Sistema Solar se formou, há 4600 milhões de anos. Em particular, o conhecimento das abundâncias relativas dos isótopos estáveis dos elementos químicos leves pode fornecer pistas críticas para o conhecimento da origem e evolução do Sistema Solar.Uma equipa de astrónomos europeus, composta por investigadores do Instituto de Astrofísica e Geofísica da Universidade de Liège (Bélgica), ESO-Chile, ESA-Holanda, Observatório de Leiden (Holanda), Observatório de Besançon (França) e Universidade de Oulu (Finlândia), estudou detalhadamente o cometa LINEAR (C/2000 WM1). Utilizando o espectrógrafo UVES no telescópio KUEYEN, um dos quatro telescópios de 8,2 m do VLT (ESO) obtiveram espectros de alta resolução do LINEAR. As observações decorreram em Março de 2002, quando o cometa já tinha passado o seu periélio e se encontrava a cerca de 180 milhões de quilómetros do Sol e a 186 milhões de quilómetros da Terra. Os espectros cobriram a região do visível, entre 330 e 670 nm. Na altura das observações, o cometa tinha magnitude visual 9. Os espectros mostraram a emissão da molécula mais comum de CN - 12C14N - assim como riscas de emissão da molécula 13C14N, que contém o isótopo raro carbono-13. Foi assim possível determinar a razão isotópica 12C/13C: 115±20, muito próxima do valor estandardizado do Sistema Solar, 89, o que foi uma fabulosa descoberta cientifica. Mas o que não conseguiram descobrir é porque é que os cometas quando caem na terra emanam um cheiro a linguiça alentejana assada em boa aguardente. Em resultado do relatado fenómeno, assim que os lobos, com os seus faros apurados enxergaram tão delicioso aroma, como setas, correram na direcção da cratera que emanava tão deleitosa essência. Chegados constataram que para além de terra, naquele buraco nada mais havia para lhes saciar o seu enorme apetite. 

Acto IV – O pequeno grande momento de terror: Cheios de gana para comer, embora contrariados, pois preferiam comer linguiça alentejana, uma vez que no centro da aldeia já se encontravam,  lá tiveram que devorar toda a população daquela, outrora, populosa localidade, após que voltaram enfartados para as profundezas da floresta. 

Acto V – O final feliz:  Após o banquete dos lobos, quando o menino regressou à aldeia esta estava realmente totalmente desabitada, pois na verdade, pelos caninos dos caninos haviam sido consumidos todos os campesinos. Em resultado desse facto o nosso menino intrujão teve o melhor natal da sua vida, acreditem que demorou seis meses só para abrir todas as prendas que ao seu dispor ficaram, e ainda, segundo me asseveraram, ficou com um suplemento de bacalhau cozido que ainda hoje subsiste. 

O “Mural” da história:                    “Nem sempre os meninos que não mentem têm as melhores prendas no Natal.”

Assinadad”auuuuuuuuuuuuuuuuuuuu”

O “O”

«Estados» (a propósito do Muro de Berlim)

Passam hoje 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim. Ou, mais correctamente, sobre a autorização, dada pelas autoridades da então RDA aos seus cidadãos, de passagem da fronteira para a então RFA. Além do início da demolição do «muro da vergonha», esta data assinalou o começo do processo de reunificação da Alemanha, e, consequentemente, também do realinhamento e reformulação das relações e políticas europeias… e até mundiais.
Há duas décadas eu estava no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa a frequentar a licenciatura em Sociologia daquele instituto. E, curiosamente, tinha escolhido «Políticas Europeias Comuns» como uma das disciplinas optativas nesse ano lectivo de 1989/1990. Pelo que foi inevitável que o primeiro trabalho apresentado por mim, pensado e elaborado «em cima dos acontecimentos», tivesse, como tema, «As mudanças a Leste e a Comunidade Europeia».
Assim, e porque me parece oportuno e relevante este exercício de memória, deixo a seguir alguns excertos desse meu trabalho, que viria a integrar o livro (ainda não publicado) «Estados – Ensaios sobre Sistemas de Poder», que tem como autor, além de mim, o meu amigo (e colega no ISCTE) Rui Paulo Almas.

«(…) “Os países de Leste têm também raízes históricas europeias muito fortes para que estejam relegados para um plano de enquadramento comunitário demasiado remoto. Se a construção do mercado único entre os países da Europa Ocidental membros da Comunidade vier a implicar uma clivagem acrescida entre o comércio do novo mercado e os países de Leste, o desiderato da União Europeia fica fortemente prejudicado.”
As extraordinárias transformações ocorridas a Leste, impulsionadas pela “Perestroika” de Mikhail Gorbatchov e consideravelmente aceleradas após a queda do Muro de Berlim, só vieram confirmar a actualidade e a pertinência daquelas palavras. E vieram também relançar o debate sobre quais devem ser os principais objectivos da Comunidade Europeia. Mais: sobre o que deve ser a própria Comunidade Europeia. Na verdade, parece-nos que se tornou um pouco prematuro falar neste momento em “Políticas Comuns” antes de se (re)definir o que se entende por “Europeias”. Por isso mesmo nos parece também correcto afirmar que o debate cooperação/integração – que nos últimos tempos tinha sido substituído pelo debate integração/unificação – tem agora novas e melhores condições para se desenvolver… e uma maior legitimidade. (…)
Mas não é só a transposição das directivas comunitárias para os direitos nacionais o único problema específico com que se debate a concretização do Mercado Interno. Outros existem, como sejam: a “Europa dos Cidadãos” - por oposição à perspectiva aparentemente dominante da “Europa das Empresas” - não regista avanços significativos, em especial nos aspectos da eliminação dos controlos fronteiriços e da implementação dos direitos de estadia para os estudantes, reformados e outros não trabalhadores; a fiscalidade, em que ainda não existem acordos sobre aproximação das taxas de IVA e de impostos sobre consumos específicos, para já não falar da indispensável harmonização fiscal, que passa pela abolição das fronteiras fiscais; e a propriedade industrial, em que é necessária a existência de uma convenção sobre “patente comunitária” e de um regulamento relativo à “marca comunitária”, que permitam às empresas europeias uma protecção eficaz dos seus produtos no Mercado Interno.
Era mais ou menos este, numa síntese possível, o “estado das coisas” no interior da Comunidade Económica Europeia em finais de Outubro do ano passado. Porém, poucos dias depois, em 9 de Novembro de 1989 – uma data que ficará para a História – o Muro de Berlim cai. A partir de aqui, nada será como antes; e apesar de os acontecimentos a Leste não implicarem necessariamente, pelo menos de imediato, uma alteração profunda nos principais objectivos da Comunidade, eles vão todavia condicionar inevitável e decisivamente o timing e os modos da sua concretização. (…)
A Cimeira (extraordinária) de Paris de 18 de Novembro, que reuniu os chefes de Estado e de Governo dos países da Comunidade, constituiu a primeira tentativa de resposta concertada às mudanças aceleradas ocorridas nos países da Europa de Leste por parte dos Estados membros da CEE.
E a principal conclusão a que se chegou foi esta: a abertura no Leste e o aprofundamento da Comunidade são dois processos extremamente interligados. François Mitterrand iria mesmo mais longe ao afirmar que foi o reforço e o sucesso da Comunidade – que constitui “o único ponto de atracção real para o futuro da Europa” – que incentivou os povos do Leste a movimentarem-se. (…)
Se já muito antes dos acontecimentos na Europa de Leste se duvidava da possibilidade da concretização efectiva do Acto Único em geral e do Mercado Interno em particular, depois da queda do Muro de Berlim as dúvidas avolumaram-se até um ponto em que é legítimo perguntar: faz hoje sentido continuar a insistir na união política da Europa?
Ao contrário do que afirmam, entre outros, François Mitterrand e Jacques Delors, as mudanças nos países de Leste não ocorreram devido principalmente ao facto de a CEE constituir um pólo de atracção, mas sim devido, essencialmente, ao movimento de reformas – a “Perestroika” - desencadeado pelo líder soviético Mikhail Gorbatchov, que permitiu a esses povos exigirem – e conseguirem – mais liberdade e mais democracia e, o que é mais importante, afirmarem a sua própria identidade nacional e cultural.
O que está a acontecer no Leste é a explosão – por vezes trágica – dos nacionalismos; ou seja, um fenómeno totalmente oposto à tendência que se está a tentar consolidar na Europa dos Doze. E apesar de os Estados membros do Comecon estarem agora a solicitar a ajuda dos Estados membros da CEE, não nos parece que isso signifique que aqueles desejam passar de um “federalismo” para outro. (…)»

“1984″

Eu deveria ter adivinhado…
Eu deveria ter calculado…
Bastava fazer as contas:
mil novecentos e oitenta e quatro, noves fora…
dá quatro.

Afinal, George Orwell estava enganado,
mas quatro cavaleiros apareceram
trazendo o meu apocalipse privado.

Eles deixaram sinais…
Eles deixaram avisos…
Porque antes levaram quatro imortais,
assim iniciando os choros e findando os risos.

António Variações, cantando, se calou.
Ary dos Santos, declamando, se parou.
Baptista Pereira, nadando, se secou.
Joaquim Agostinho, pedalando, se apeou.

E no desporto despontaram quatro memoráveis momentos desse ano:
derrotas deprimentes, ante italianos e franceses, do Porto e de Portugal;
três medalhas olímpicas, uma de ouro para Carlos Lopes, o nosso herói;
no Estoril regressou a Fórmula 1 e Niki Lauda foi, de novo, campeão mundial.

Mas esse Verão passou e com ele outra vida se desfolhou;
no Dia de Finados vi um carro funerário e pressenti que estava perto.
E a 4 de Novembro, às quatro da manhã, num quarto de um quarto andar,
o futuro surgiu branco como o lençol cobrindo quem nunca mais veria desperto.

Na música procurei alívio e ânimo para uma existência à beira da desistência.
Ouvi canções sobre liberdade, guiar, duas tribos, nascido nos Estados Unidos.
Eu sabia que era Natal, e a melhor prenda foi realmente o disco de um príncipe
que, qual feiticeiro, fez cair uma chuva púrpura que purificou os meus sentidos.

Poema (Nº 293) escrito em 2004 (a 4 de Novembro) e incluído no meu livro «Espelhos».

O Som que sempre foi da Frente…

E agora quem vai ser a bussola que nos indica o norte alternativo?

Obrigado António e até sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=itwL5y0He-k

Em Defesa da Reserva Agrícola Nacional

Assinei hoje a petição «Em Defesa da Reserva Agrícola Nacional». Quem quiser fazer o mesmo deve ir aqui.