magnetic short stories series

Fotografia de Kitchen Sink (1999)
Magnetic
Gostava daquele café. Do design moderno, do espaço entre as mesas, dos jornais à mão de semear, dos ecrãs plasma espalhados a emitirem imagens e música de fundo da MTV.
Aquela sexta-feira de Junho foi diferente. A chuva afastou-o da mesa junta à janela. Procurou uma junto ao balcão. Não gostava de olhar para a chuva. Sentia-se pegajoso com a humidade. A TV transmitia mais um jogo do mundial de futebol. Pediu o chá verde habitual ao mesmo empregado de sempre. O mesmo café, o mesmo pedido, o mesmo empregado com brincos e uma tatuagem simbólica qualquer a irromper pelo pescoço. Não gostava de tatuagens. Da sujidade que imprimiam ao corpo.
Na mesa ao lado uma mulher, na casa dos trinta, bebia um sumo de laranja. De fato executivo falava ao telemóvel. Deixava antever mais um monólogo do que diálogo.
- Não me digas que não podes!… combinámos para hoje ou será que te esqueceste?… Sim… Mas que raio de trabalho… Mais de metade de Lisboa fez ponte e tu vais ficar a trabalhar. Merda!… sempre a mesma coisa!… eu sei que tens de trabalhar… mas vê lá se chegas a horas…. Não dormes lá?.. porquê?… tens de levar a tua mãe no sábado de manhã ao Alentejo!… Não me tinhas dito nada. Se disseste, eu não fixei… Ah!.. Agora sou eu que não te ligo nenhuma!… porra!.. logo falamos. O jantar está marcado às oito em casa deles…Onde estou? No Magnetic a beber um sumo. Vais lá ter directamente? …está bem…como sempre eu vou de táxi. Até logo!
Suspirou. Atirou o telemóvel para a mesa. Pediu a conta. Pagou, bebeu o resto do sumo e saiu apressada carregando consigo o prenúncio de uma noite solitária.
Bebeu mais um pouco de chá. Observou o casal de idosos. Desde que entrou não esboçaram qualquer conversa nem se entreolharam. Sentados, duas mesas adiante, ela lia uma revista cor-de-rosa. Ele o jornal. Serenos, como só a idade faculta, apenas desviavam o olhar para quem entrava.
De súbito uma lufada de ar fresco. Ela entrou com passo decidido e apressado. Magra, de porte digno, caminhou para a mesa livre ao meu lado. Cabelo longo, castanho claro. Bonita. Os olhos percorriam rapidamente para cada uma das mesas, observando o que estavam a beber e a comer, decidindo o que ia pedir. Uma T-Shirt de alças justa deixava antever uns seios firmes e com as dimensões adequadas. Óculos pendurados ao pescoço denunciavam mais do que quarenta anos. Não aparentava. Um cinto de cabedal justo fazia sobressair a sua delgada cintura. “Tem estilo!”, pensou ele. Umas calças justas qb realçavam as suas formas. Botas de cabebal de tacão alto davam-lhe um ar selvagem. “Um misto de roqueira e de tia”, pensou. O conjunto era atraente. Sobretudo uma erupção de energia selvagem.
Sentou-se. Puxou a cadeira ao seu lado. Pousou um saco azul. Chamou o empregado com voz firme e grave. Pediu um café. Retirou do saco, um bloco Moleskine, caneta, um livro de Capote – “A Sangue Frio”, isqueiro bic, maço de SG Ventil e um telemóvel. Olhou rapidamente para todo o lado como um farol, para perceber em que ambiente estava. O telemóvel tocou. Colocou os óculos que tinha ao peito e olhou para o ecrã. Fez um esgar de aborrecimento.
- “Sim. Diz!… Agora não. Não podes resolver?.. Não. Dentro de 20 minutos estou aí. Adeus”. Dura e seca.
Bebeu o café. Cruzou as pernas. Abriu o Moleskine e escreveu de forma decidida. De repente o som de um SMS no telemóvel. Pousou a caneta. Olhou para o telemóvel. Um sorriso largo e doce transformou-a. Encostou-se na cadeira segurando o ecrã à sua frente como quem não quer perder aquele instante. Puxou de um cigarro. Teclou no telemóvel e sorriu ainda mais. Retirou os óculos. Olhou para o infinito como quem está em paz com o mundo.
Bebi o resto do chá. Pedi a conta.
Comments 4
Apetecia-me continuar a ler …
Posted 26 Jun 2007 at 3:35 ¶Quem disse que o Voyeurismo era uma coisa má?
Parabéns Luis.
Alexandre
Posted 26 Jun 2007 at 9:07 ¶Ooo-lá-lá! Sexy….
Posted 26 Jun 2007 at 10:24 ¶Pois:)) Gostei…
Posted 29 Jun 2007 at 18:30 ¶Post a Comment