Ele e a amiga tinham-se encontrado, por mero acaso, numa grande cidade. Como já sabiam o que se apreciavam um ao outro, abraçaram-se para reviverem sensações antigas, apesar dos anos e da distância que os separavam dos momentos vividos na juventude. Só que ambos sabiam que a memória não atraiçoa quando se trata do que foi bom. E, com a maior naturalidade, passearam por ruas de mãos dadas. Percorreram quarteirões aos abraços, indiferentes aos olhares curiosos que os olhavam, pouco acostumados a esses amores intensos já tão adultos e provectos. Depois, aconteceu algo que o fez tremer, não sabia se de emoção, se de atrapalhação, se de excitação suprema por adivinhar o que se ia seguir. A amiga puxou-o para um vão de escada para se beijarem, avidamente numa química perfeita. No prédio havia um elevador antigo. Estreito, com portas de ferro, em harmónio, de correr. Entraram, subiram lentamente e continuaram aquela aventura adiada. De súbito o velho ascensor parou. Um casal bastante idoso olhava-os com um ar entre o divertido e o reprovador. Os dois tinham-se esquecido que quem apanha o elevador é suposto sair em qualquer andar, a menos que ande completamente distraído dos rituais quotidianos. Estavam pasmados, naquele espaço exíguo, a olhar o casal. Não mostravam tenção de sair. Quando caíram na real, precipitaram-se para a porta, cumprimentando e agradecendo cerimoniosamente ao casal. No patamar olharam-se, pressentindo o que poderiam dar um ao outro e partilhar. Dessa vez a maturidade falou mais alto e desceram, agora pelas escadas, os 4 andares até ao rés do chão, não sem terem parado umas quantas vezes, sempre de ouvidos alerta, para não voltarem a ser surpreendidos, continuando naquela montanha russa de emoções e sensações fortes, como se tivessem sido arrastados para um viver diferente do de todos os dias. Beijaram-se, abraçaram-se, tocaram-se, segredaram-se palavras que os punham cada vez mais doidos. Depois, já na rua, com o sol forte a cegar-lhes os olhos, olhavam deslumbrados um para o outro, incógnitos na cidade enorme. Foram beber água num café antigo e sombrio que já devia ter albergado muitos amores inusitados e entregaram-se a uma conversa dolente, enquanto se mexiam por baixo da mesa, e imaginavam como seria o acabar do que tinham começado.
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Comments 3
Confesso que ainda não tinha lido. Muito bom, sim senhora.
Posted 28 Jun 2007 at 18:54 ¶Permita-me que me apresente: ladob, muito prazer.
Gostei…
Posted 29 Jun 2007 at 18:46 ¶adorei!!!!
Posted 24 Jul 2007 at 14:01 ¶de qdo em vez aconteçem certo imprevistos nas nossas vidas………
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