Oito horas e cinquenta e três minutos, hora de Bagdade.
A multidão aglutina-se para assistir ao combate final. Os títulos pessoais que garantem o visionamento do mesmo (antigamente não havia bilhetes!) estão completamente esgotados. Tem havido conhecimento de que estão a ser falsificados. Pelo exposto e já prevendo esta situação, os títulos foram emitidos com um dispositivo de segurança para se aferir da sua autenticidade, os autênticos foram impregnados com essência de cadela com cio. Pelo que cada portageiro tem junto a si um cão, se ele uivar, o título é verdadeiro. Este facto confere, por si só, um excelente toque sonoro ao ambiente de elevada ansiedade que rodeia toda a arena.
Oito horas, cinquenta e três minutos e alguns parcos segundos; deixou-se de ouvir os uivos (ou seja, toda a gente já entrou, eu explico tudo bem explicadinho para não surjam mais tarde interpretações duvidosas, ou mesmo descodificadores dos meus textos, ou algo do género – agora meus amigos vou-vos vingar dos hediondos actos de José Rodrigues dos Santos; quem já leu o Codex 632, lembrasse certamente da passagem - lá do rapaz que almoçava com a sueca – coisa original podia ter sido uma búlgara - na praia de Copacabana; Zé grande seca deste ao pessoal!!! Ele arranjou tantos apregoadeiros, tanto suquinho e tão grandes quantidades de fruta, tão minuciosamente descritas que transformou uma ida à praia numa deslocação a um hipermercado, só para mostrar ao pessoal que esteve no Rio de Janeiro. Estou mesmo a ver cara dele a escrever aquelas páginas, aliás notasse perfeitamente pela forma como as escreveu - Vou gozar com estes gajos, e como o editor paga os meus trabalho à página, ainda vou ganhar uns cobres!!! Zé, desculpa-me, foi um abuso, um gajo para ganhar uns cobres não deve fazer de tudo, e tu foste longe demais, mesmo demais. Eu vou exemplificar com a minha prosa a figura que tu fizeste, embora ache esse feito inalcançável, em todo o caso vou tentar.)
Uma vez acabados os uivos; a explicação do mesmo coabita com o puxão de orelhas (desculpa Zé foi mais forte que eu) que dei no parágrafo anterior. Ouviram-se os aperguadeiros:
- Olha a asa de morcego frita!!!!
- Olha a asa estaladiça!!!
- Olho bom morcego!!!
E no meio do público destaca-se a vós de uma criança:
- Mãe quero uma !!!!
A mãe não se demoveu e continuou agir como se nada fosse com ela, pelo que a criança teve que tomar medidas drásticas, puxando pelas cordas vocais como se fosse un petit Pavarotti:
- Ohhhhhhhhhh Mãeeeeeeeeeeeeeeeeee, quero uma asa de morcego!!!!
Ainda assim a mãe não lhe deu qualquer resposta, pelo que a criança de seguida resolveu mudar de estratégia. A pequena criança, uma menina linda com olhos e aspecto angelical, igualzinho à daquela afegã que se celebrizou na capa da National Geografic Magazine, chegou-se ao pé do ouvido da mãe e em voz muito baixa sussurrou:
- Mãezinha queria tanto uma asinha frita.
Ao que a mãe lhe disse com ar altivo:
- Nem penses!!! Estás farta de comer porcarias.
Ainda assim a pobre menina não desistiu:
- Olha mamã se eu não comer uma asinha, fico fraquinha, e essa fraqueza pode complicar o meu discernimento e contar ao pai que…
- Olhe lá estou farta de o chamar não vê que miúda quer uma asa de morcego – Diz a mãe ao vendedor que Asas de Morcego.
- Faz muito bem, responde o sujeito – Que apercebendo-se da preponderância que filha tinha sobre a mãe, com o instinto comercial nato (nos States, dizem Otan), que é célebre daquelas gentes pergunta logo, habilmente, à Sra. Mãe:
- E um suquinho de sapo? Olhe que faz bem aos olhos das meninas!!! (claro está meus amigos, que o suco de sapo não era feito de sapo, antes uma mistela com vários frutos que davam ao sumo um tom de verde idêntico ao dos sapos, daí o nome, há que manter a dignidade histórico factual desta coisa que vos escrevo).
- Ohhh mãe eu quero!!! - diz a miúda com ar esganiçado.
- Nem penses, já te estou a comprar a asa de morcego. – Responde a mãe com ar autoritário, como se o diálogo de ambas acabasse ali.
A miúda que não era nenhuma santinha, olhou a mãe olhos nos olhos, e com o indicador fez-lhe indicação para a ela se chegar enquanto outra mão segurava a cintura enquanto e o pé direito batia ritmadamente no chão. A mãe chegou-se a ela e de pronto disse-lhe a catraia:
- Olha mãezinha, sabes quando as pessoas ficam com sede, começam por ter visões, e posteriormente a delirar, olha mãezinha o que deixa cheia de receio de que involuntariamente possa dizer ao papá que o Moamed Ali-Fodi, o nosso empregado, de manhã quando o papá vai para a loja, está sempre contigo na cama a coçar-te as costas. Ohhhhhhhh mãezinha, tenho tanto medo!!!!
A Sra. Mãe nem pestanejou e disse ao vendedor:
- Olhe que eu quero a minha filha com olhos bonitos, dê-lhe já um ânfora de sumo batráquio!!!
- Fez muito bem minha senhora – responde-lhe o Vendedor – sumo de sapinho dá saúde e… – Quando o vendedor ia a completar o pregão, a menina interrompeu dizendo-lhe:
- Ó Senhor Vendedor o que tem mais aí para uma criança ficar satisfeita, ou melhor calada. Sabe as crianças quando não têm nada que fazer começam a fazer conversa. Como são crianças muitas vezes não pensam o que dizem. E como as crianças são autênticas e ingénuas, não sabem mentir. E a minha Mãezinha, gosta de mim ocupadinha, não gota Mamã?
- Adoro filha, adoro, vê lá se queres mais alguma coisa?
O vendedor perante este facto, não teve mais que assobiar para chamar a atenção para os demais vendedores.
Chegam mais de vinte carregados com as mais diversas guloseimas e iguarias (leste bem Zé? São vinte se cada um tiver cinco produtos diferentes dá, ora deixa lá ver, vinte vendedores e cinco produtos, supondo que se tem que multiplicar, será cinco vezes vinte, bem tu depois fazes as contas porque eu nunca aprendi a tabuada dos vinte, mas dará certamente uma quantidade apreciável de pregões. Está a ver o que te espera não estás? É bem feito porque chamas-te tantos nomes ao Colombo que só faltou dizeres que ele era homossexual – o que não me admiraria nada, tantos meses sozinhos no mar, os marinheiros - e que a associação columbófila se dedica ao estudo da vida de Colombo. Estás feito Zé !!! Estás feito!!! Ah..ah…ah….ah…(esta gargalhada é igual a do inimigo do Flash Gordon, cujo nome não me recordo mas que talvez após uma análise sumária venha a descobrir, mas que dizia sempre com o seu belíssimo sotaque alienígena – Flash Gordon you are dead!!!- depois soltava a maravilhosa gargalhada. Claro que para os outros inocentes leitores não sofrerem pelo teu pecado, irei fazer uma edição especial de pregões só para ti).
A pobre criança inocente e sadia, lá foi abanando levemente a cabeça e dizendo ahhhh..ahhhhh, a cada oferta que lhe agradava, ela abanava a cabeça, a mãe pagava, enfim um verdadeiro festim.
No final das suas escolhas, já com uma saco cheio de gulodices e afins, abraçou a mãe, já exausta, e disse-lhe:
- Mama és a melhor mãe do mundo!!!
Entretanto um “trovador” que tinha assistido a tudo, inspirou-se, e como uma voz e uma atitude que fazia lembrar Joselito, nos tempos em que ainda não era Jose, que começou a cantar:
- Nós somos que vemos na tv
- ou então a tv nunca nos viu
- só nos mostra os monstros de perfil
- como se eles brotassem do vazio, cheios de cio
- “Miúda o é que levas nesse saco “!!!
- oohhhh YeaH
- nesse saco aí junto ao ventre
- Miúda
- Miúda eu faço parte do veludo denso e mau.
- Nós somos a matéria do amor
- Num mundo de miséria das paixões.
- se deus tivesse filhos por favor não os deixava nas imediações
- Miúda o que é que levas nesse saco…
- Nesse saco aí…
- oooooohhhhuuuuuuhhh Yeeeeeaaaahhhhh
- Eu faço parte desse, desse saco?
(Versão adaptada do tema Miúdo dos Cindy Cat – 2006 - Apesar dos direitos de não terem sido respeitados, bem que vocês - membros dos Cincy Cat - poderiam patrocinar este nosso espaço aberto à escrita e à pintura. A receita desse patrocínio seria para abonar os estômagos famintos dos membros que compõem os “Esquinas”, pois só consegue ser criativo quem tem a barriguinha cheia.)
Mal havia cantado a última estrofe, o pobre cantor a ultima coisa que viu foi os seus pés em pormenor, pois um sujeito que o estava a ouvir, pensou que a referencia a TV, no início da musica lhe era dirigida, ora como todos nós sabemos naqueles tempos ainda não havia televisão, ao contrário sempre existiram Travestis, e TV, é diminutivo de Travesti, logo a única interpretação possível para aquele ouvinte, razão pela qual o pobre trovador ficou com a cabeça entre os seus pés.
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