Não!!!
- Não, não façam mais isso!!!
- Eu já não aguento mais!!!
- Já faz três dias que aqui estamos e bem sabem que não vos vou dizer onde ele está!!!
- Já me torturaram com todos os requintes de malvadez possíveis e humanamente impossíveis, mutilaram-me, sinto-me exausto, e já naquela fase em que pouco ou nenhum apego tenho à vida. Não seria agora que iria ceder. Façam o que fizerem. Todos sabemos o fim disto, pelo que façam o que têm a fazer!
- Não, não estou a provocar!!! Você sabe bem disso!!!
- Não vale a pena me atemorizar com isso!!!
- Você bem sabe que só me tem a mim, não tenho mulher, filhos, amantes, ou amores perdidos. Muito menos família.
- E sabe porquê?
- Por isto. Olhe para ele. Podem-no serrar à vontade, que pouco me importo.
- Eu privei-me de amar e de ter amigos, para não estar nesse estado.
- Apesar de o invejar pois se quer tanto viver, é por viveu a vida em todas as suas cambiantes, coisa que eu não fiz.
- Mas por piedade a ele sejam rápidos. Até porque os guinchos que esse porco emana incomodam-me, apesar de em nada me amedrontarem ou comoverem.
Bang!!!! (som de uma arma de tiro)
- Obrigado.
- Já lhe disse que sei onde ele está. Mas não lhe vou dizer!
- Até tem razão, o tipo não presta, eu até deveria vir aqui pessoalmente pelo meu pé denunciá-lo. Mas prometi aos meus camaradas que guardava este segredo. E se não o vou denunciar, não é por ele, muito menos para o proteger, mas apenas pelo simples facto que se o fizesse a minha vida perdia todo o sentido. Todas as noites que passei sozinho. Todas as aventuras que tive com mulheres imaginárias teriam sido em vão. Todas as vezes que sonhei tapar uma criança que tivesse o meu apelido, teria sido uma mera ilusão de uma ilusão. Pelo que não o vou fazer. Prefiro que me matem, aliás, vocês fazem-no na mesma quer eu conte quer eu não.
- Verdade, isso é verdade. Você deu-me todas as hipóteses de eu confessar. Mas eu mesmo que o fizesse nunca o faria a alguém mascarado.
- Diz-me que esse é o garante de que se eu confessar a vossa identidade fica protegida e mandam-me à minha vida?
- Sabe que já faz muitos anos que não tinha tanta intimidade com ninguém como tenho neste momento consigo, estamos os dois juntos já faz algum tempo. Até sei que sofre comigo quando me tortura. Apesar de mascarado é notório que o faz com menos satisfação a cada hora que passa. E até sei que o faz, apenas porque é a sua profissão. Por isso peço-lhe, coloque-se no meu lugar. Se eu denunciar onde está o trolha que tanto procuram, e até colocando a hipótese de que vocês me libertam, o que faria depois?
- Meu amigo, a única realidade que conheço é a dos Contras. Mesmo que libertassem mais dia, menos dia, eles encontravam-me e eu acabava com uma bala na cabeça em vergonha. E morrer até pouco me importa, pois não tenho passado para me apegar.
- Mas morrer por morrer, que morra com honra!
- Honra que quê e de quem?
- A honra é algo pessoal meu bom amigo. Honra faz parte de um conceito de vida que se tem ou não se tem. O meu conceito de vida é não denunciar ninguém. Essa é a minha honra e conduta.
- Não diga isso, não assim tão ingénuo.
- Eles de facto não são melhores que vós. Vocês fazem a ditadura em nome do poder, e para o proveito económico de alguns. Eles farão o mesmo em nome de um pseudo-povo que vai ser usado para proveito apenas de alguns quantos.
- Até acho que vocês são muito mais transparentes, honestos e justos, pelo menos não dizem que o que fazem é pelo povo. Fazem-no por vós, não iludem ninguém.
- Mas não, não vou revelar. Não por eles nem contra vós. Mas unicamente por mim.
- Não!!!! Não!!!!!
Mais tarde foi feita uma rua em seu nome. A placa toponímica solenemente descerrada exibe pomposamente os seguintes dizeres: Rua António Marques, filantropo, mártir e militante anti-fascista que deu a sua vida pela revolução.
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