A Matriz da Ideia

Há milhares de anos atrás quando a filosofia ocidental começou, senhores gregos como Heráclito, Zenão, Sócrates, Platão e Aristóteles tentavam conceber o porquê das coisas serem como são. Já nessa altura, uma das principais preocupações entre os filósofos era o problema da percepção e até que ponto é que a percepção das coisas interfere ou constitui a própria realidade. Lembro-me, quando era adolescente, de desvalorizar a Alegoria da Caverna nas aulas de Filosofia, mas confesso que hoje em dia, a matriz platónica me parece mais fascinante. Se virem o filme «Matrix», por exemplo, poderão encontrar uma versão moderna da Alegoria da Caverna: o que é que é realidade e o que é que não é? Será que tudo o que vemos à nossa volta não é uma máscara que esconde uma outra realidade qualquer? Será que os limites da realidade e da fantasia podem ser ultrapassados? Será que tudo o que vemos da realidade não é uma mera sombra de uma imagem qualquer, muito embora estejamos a acreditar plenamente que o que vemos é a realidade, até porque não conhecemos outra?

Ao longo dos tempos, estas primeiras ideias de realidade, de humanidade, de ética, de razão, foram moldando o modo como a civilização pensava. De Aristóteles a Santo Agostinho, até Kant, Hegel, Marx, Nietzche, Wittgenstein, Popper, Heidegger, etc. Quer queiramos quer não, a filosofia tornou-se a base do direito, da ciência, da arte, da literatura. Naturalmente, é aqui que começa a influência de Freud e, porque não, de Lacan ou de Zizek.

A Psicanálise, para além de uma teoria psicológica e uma corrente terapêutica, é uma antropologia. Explica, de um determinado ponto de vista, talvez mais científico que a filosofia mas menos que a física, o que é e como funciona o pensamento humano e, portanto, a percepção da realidade, ou o lugar da Humanidade. Para a Psicanálise, toda a realidade passa, em primeiro lugar, por uma grande filtragem emocional, antes de se tornar realidade para cada um de nós. Como nenhuma outra, a teoria psicanalítica desenvolveu uma grande riqueza de conhecimento sobre o interior da mente. Isto abriu portas completamente novas, não só aos psicólogos e aos filósofos, mas também aos artistas, aos cientistas, aos teóricos do direito e, claro, aos escritores.

Para compreendermos até que ponto as questões estão entrelaçadas basta analisarmos a obra prima dos irmãos Wachowski, a trilogia «Matrix» (ou também o filme seguinte, menos conseguido mas também interessante, «V de Vingança»). Os filmes têm claramente uma óptica política, embora intrincada – será que as pessoas se portam de facto como vírus? Será que o sistema de leis e de «realidades» que nos dominam são, de facto opressivas? Será que temos, realmente, algum controlo sobre a nossa vida?

Os filmes são, no entanto, uma viagem psicanalítica. Neo faz uma viagem equivalente a um paciente em psicanálise, integrando a «realidade» e a «fantasia» de um modo funcional. A profundidade destas obras é, de facto, muito maior do que os efeitos especiais que as celebrizaram fariam supor. Só para dar um exemplo.

Isto para referir que sou fundamentalmente oposto à afirmação de que o foco nas questões psicanalíticas sejam uma distracção relativamente a um debate teoricamente mais «verdadeiro e útil» sobre as ideias, filosóficas ou políticas: pelo contrário, parece-me essencial para esse mesmo debate.

Os «psi», por outras palavras, são a profundidade «em pessoa».

Fico à espera da resposta, meu caro ‘quinas’. Está aberto o debate.

Comments 11

  1. ajuncaodobem wrote:

    Clap…Clap..Clap!!!!
    E agora que venha “el mano a mano”

    Posted 25 Set 2007 at 13:01
  2. ajuncaodobem wrote:

    Meu caro Lado B, isso a bem dizer, quer dizer, essas coisas que acabas de escrever servem para alimentar o estomago de alguém?
    Não me parece!
    Esse Lacan sabe fazer uma boa feijoada aqui como o “O”?
    Não?
    Bem me parecia.
    Como até escreves bem eu dou-te a receita:
    500 g feijão manteiga
    1 c. sopa óleo
    1 folha(s) de louro
    400 g entrecosto
    1 chouriço-de-sangue
    100 g toucinho
    2 cenoura(s)
    1 cebola(s)
    50 g margarina
    1 dente(s) de alho
    2 tomate(s) cortado(s) em pedaço(s)
    1 ramo salsa
    2 folha(s) de louro
    Depois só tens que:
    1. Escolha o feijão manteiga e ponha de molho em água fria durante 6 horas.

    2. Depois cubra o feijão com água e junte o óleo e a folha de louro e leve a cozer durante cerca de 1 hora.

    3. À parte, coza em água o entrecosto, o chouriço de sangue, o toucinho e as cenouras.

    4. Pique a cebola e aloure-a em margarina. Junte o dente de alho, os tomates em pedaços, o ramo de salsa e a outra folha de louro e deixe refogar tudo.

    5. Junte o feijão cozido e escorrido e um pouco de água de cozer as carnes. Tempere com pimenta e deixe apurar.

    Meu caro Lado B…depois de comeres isto e beberes uma boa pinga, vais ver que vês esse Lacan de outra forma!

    Um grande abraço “O”.

    Posted 25 Set 2007 at 13:08
  3. ladob wrote:

    (respondendo de uma forma muito psicanalítica)
    Ai o c…
    …houriço!
    É que isso dos tomates em pedaços junto do dente de alho e dum ramo de salsa…..

    Posted 25 Set 2007 at 13:34
  4. ladob wrote:

    Parece-me que vou ter que começar a censurar os comentários desse tal «ladob»….

    Posted 25 Set 2007 at 13:37
  5. ajuncaodobem wrote:

    Isto mais parece um chat que uma “tertúlia” ou será tortilha?
    Por via das dúvidas eu junto a receita:

    Ingredientes:
    1 kg batatas descascadas
    Sal
    2 cebolas grandes
    50 g manteiga
    2 colheres de sopa de azeite
    1 dente de alho esmagado
    2 colheres de sopa de salsa picada
    4 ovos ligeiramente batidos

    Preparação:
    Corte as batatas em cubos pequenos, ponha num tacho cobertas com água e sal e deixe cozer. Escorra bem.
    Numa frigideira funda anti-aderente, aqueça a manteiga e o azeite. Junte as cebolas às rodelas e o alho esmagado e cozinhe em lume brando, mexendo de vez em quando durante cerca de 10 minutos.
    Junte as batatas cozidas e cozinhe mais 2 ou 3 minutos.
    Junte os ovos batidos e a salsa picada, misture bem e deixe cozinhar em lume muito brando, com a frigideira tapada até a parte de baixo estar dourada.
    Sirva em fatias com salada de alface, como entrada.

    hummmmmm que delícia….

    Quem é amig”O”, quem é?

    Posted 25 Set 2007 at 13:41
  6. ladob wrote:

    LOL!!!! É amigo, é!!! :-)

    Posted 25 Set 2007 at 15:34
  7. ajuncaodobem wrote:

    Estranho…seremos nós os único pro-activos nesta coisa que se diz ser tertúlia…ou seremos os mais inactivos, em termos profissionais?

    Posted 25 Set 2007 at 15:45
  8. ladob wrote:

    Por «Inactivos, em termos profissionais» queres com certeza dizer: «Os que aproveitam a vida, a natureza, o amor e a bela energia do Universo».

    Posted 25 Set 2007 at 17:48
  9. Manela wrote:

    Estou a gostar deste “chat” mas parece que falta a sobremesa:)) Sendo assim continuo à espera….
    Agora mais a sério, interessante este este texto, que ainda estou a associar ” a matriz da ideia ” com o conteúdo…mas está uma delícia como sempre:)

    Posted 25 Set 2007 at 19:29
  10. Octávio dos Santos wrote:

    A minha resposta, meu caro ladoB(runo), a este teu excelente texto, a esta tua magnífica reflexão, é esta: concordo! O meu artigo «Por uma nova literatura» não está em contradição com o que pensas e com o que escreveste. Eu não nego a importância do «psi» e a sua influência determinante nos nossos pensamentos e nas nossas acções. Apenas afirmo que, na criação de uma literatura e de uma arte relevantes, e, exactamente, úteis, o «psi» e a fragmentação que lhe é inerente devem constituir um ponto de partida e não um ponto de chegada; fazer das (reveladas) fraquezas forças; com as partes construir um todo. Por mim está fechado o (este) debate. Vamos a outro? Por exemplo, sobre o artigo que eu vou (re)publicar no Esquinas amanhã?

    Posted 26 Set 2007 at 23:17
  11. ladob wrote:

    Xelente! Vamos a isso! Relativamente ao que estás a dizer, também concordo.

    Posted 27 Set 2007 at 10:21

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