Resposta de Matilde Genoveva a Ludovico

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Perguntou-me se gosto do meu nome? O menino é tão engraçado. Faz perguntas giríssimas. Acho Matilde um nome óptimo. Os meus pais escolheram lindamente. É suficientemente nobre para dizer bem comigo (q sem ser tia, beta ou snob sou uma rapariga de berço) e é casto quê bê para poder convidar quem quer que seja para ir comigo à missa. Gosto deste nome!!!!! Pois meu querido amigo, como lhe dizia, sou brasonada dos quatro costados. Por quatro lados. Saavedra, Savonaro, Montalvão e falta-me o restante quarto nome dessa família que dizem ter sido minha. Penso ser um nome francês. Andei há tempos a passar a carta de brasão a computador, a pedido da mamã, para que fosse religiosamente guardada numa pasta onde a senhora, guarda os legados da família.

Nas últimas férias na aldeia debatemos a fundo a questão e, alguns de nós, ficámos satisfeitos por nos sabermos assim nobres. Devo confessar que fui mais eu e um dos cunhados que gostámos da ideia. O meu cunhado Rodrigo, que é do belo, acompanhou-me incondicionalmente nos meus sonhos de menina brasonada. Ou seja, passível de conseguir um óptimo casamento. O que para aí deve haver à farta são tios riquíssimos que adorariam levar ao altar uma menina de excelente nome e com brasão, tá a ver? Ainda por cima com as excelentes relações que os pais têm, talvez consigamos que Don Juan Carlos de Bourbon possa vir à boda. Bom, mas o Rodrigo e eu já só nos imaginávamos com camisas de punhos bordados com o dito brasão, travessas nas paredes de nossas casas, um cachucho na mão direita, porque não, e coisas que jantes.

Tá a ver? Claro está que imaginei também o meu enxoval, todo bordado na Lixa, porque não, com o monograma do brasão.

A minha cunhada Benigna é que não achou muita graça à conversa. Tem a mania que é feminista e “esquerducha” e então vá de criticar com o seu ar mais intelectual e enjoado. Uma parva aquela “piquena”. Sempre gostava de saber o que o mano Bartolomeu viu naquela rapariga. Tão querido o Bartolomeu e havia de lhe sair aquela na rifa. Também se ele lhe desse uns berros já ela havia de ter mais respeitinho por todos. Assim até evitamos falar-lhe para não termos de aturar logo não sei quantas teorias filosóficas e biólogas sobre não sei que tema da moda. Mas desta vez correu mal porque, como o menino sabe, o meu cunhado Rodrigo adora provocá-la e resolver dar ênfase à conversa do brasão. Mas até foi engraçado. Ela estava toda irritada porque nos pusemos com uma conversa giríssima, ligada ao brasão, mas cheia de deícticos, e ela, às tantas já não atinava com coisíssima nenhuma. Bem feita. É tão esperta!!!

Não se esqueça o querido de me contar a prometida história dos chinelos de três gerações.
Acho lindo, os chinelos terem vindo de avô para pai e de pai para filho. Alimente bem a seu filho para que tenha pé de gente em tempo útil, i.é, a tempo de poder calçar tais relíquias.

beijos amigos e castos
Matilde Genoveva

E Ludovico, deixe-me acrescentar, Acho que está a correr bem esta troca de palavras. Penso estarmos a ser acometidos por um afluxo de boa e fluida verve. Talvez um pouco elitista esta tão entusiástica eloquência “mais - tant pis!!!”. Desde que nos entendamos nós, é o que interessa. O Bernardo e o Rodrigo confidenciaram-me que, mal entrei na sala, tiveram um único pensamento em relação à minha pessoa “Sherr stränlend!!! Descortina? Compreende. É não só o ar distinto mas também a elevação de espírito que se fazem sentir. Concorda?

Comments 1

  1. ajuncaodobem wrote:

    Comentário: Muitíssimo bem escrito, muitíssimo imaginativo, muitíssimo muitíssimo, em suma: Adorei!!!

    Posted 14 Fev 2008 at 18:09

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