Férias Judiciais - Parte V - Um conto d”O”…

Não, não bebi o sangue da minha vítima, não sou nenhum Hannibal Lecter, mas alguma coisa havia mudado em mim, sentia-me mais seguro, conseguia agora olhar de frente para qualquer pessoa, penso eu que o faria até dentro de um exíguo elevador e, inacreditavelmente, sinto-me livre, calmo, relaxado. Em suma, sentia-me. E agora que vos faço o relato, é reconfortante para mim a reflexão, que na verdade, apesar de não o dever, sinto um enorme carinho por aquela que foi a minha primeira vítima, pois é como a, ou, o consorte que nos tira a virgindade, podemos esquecer todas as outras situações seguintes, mas aquela foi singular.

            Cheguei ao carro, com o Manuel nos braços, a criança dormia profundamente, posei-o no seu lugar e coloquei-lhe o cinto de segurança. E lá partimos em segurança.

            Entre Aveiras e Santarém, um sujeito que circulava em excesso de velocidade por malícia ou por graça, como se piada tivesse, ao ultrapassar o nosso veículo, entrou para a nossa faixa com tal violência que nos obrigou que nos a ter que refugiar na faixa lateral. Todos gritaram assustados. Todos com excepção da minha pessoa, eu ainda estava a degustar o meu feito, nada me incomodava e me tirava daquela maravilhosa transe.

            - Queres ligar para a polícia? Aquele gajo é doido ainda mata alguém!

            - Não vale a pena querida.

            - És um frouxo, não sei como estou junto contigo!

            O comentário não me enfureceu, eu de facto até então era o maior dos medrosos, quando fora do ambiente que dominava, mas ainda assim, não pela qualificação que ela fez da minha pessoa, mas porque os meus filhos não tinham que estar expostos a comentários daquela natureza, avisei a de que:

            - Olha Inês, que seja a última vez que te diga. Não voltes a falar com esses propósitos ao pé dos meninos. Repito, que seja a última vez.

            A Inês que era pessoa para discutir durante horas e horas, remeteu-se ao silêncio absoluto. Perdendo mesmo toda e qualquer vontade de replicar o que eu lhe havia dito. Também ela sentiu a diferença que me demarcava de forma abismal do meu anterior eu.

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