Hoje, Dia Mundial da Música, é também o dia em que se assinala o 30º aniversário da edição do primeiro disco de Prince, «For You» - e isto no ano em que «Sua Alteza Púrpura» também celebrou (a 7 de Junho último) o seu 50º aniversário (uma efeméride que os principais media nacionais ignoraram, preferindo dar destaque aos 50 anos de Madonna e de Michael Jackson e aos 65 de Júlio Iglésias…)
Este é pois o momento certo para se (re)ler o meu artigo «O “sinal”, duas décadas depois» (sobre o álbum «Sign O’ The Times»), publicado no ano passado – quando passavam 20 anos sobre a sua edição - no Jornal de Negócios (primeira versão) e este ano na revista Cais (versão integral).
Muitos sabem que «Sign “O” The Times», cujo 20º aniversário da edição se celebrou em 2007, é a mais importante (até agora) obra de Prince – cujo 50º aniversário do nascimento se celebra em 7 de Junho de 2008. O que poucos sabem é que, originalmente, aquele álbum era para ser bem maior – e várias das «partes que faltam» existem e podem ser ouvidas.
A evocação
Passaram 20 anos: em Abril de 1987 era editado em todo o Mundo aquele que é quase unanimemente considerado o melhor disco daquele que deveria ser unanimemente considerado o melhor produtor-autor-compositor-cantor-instrumentista da história da música popular contemporânea anglo-americana: «Sign “O” The Times», de Prince Rogers Nelson.
«Sua Alteza Púrpura» viria, é certo, a fazer outros álbuns de excelente qualidade e de grande impacto, tais como «Diamonds And Pearls» (1991), «The Gold Experience» (1995), «Emancipation» (1996), «The Rainbow Children» (2001) e «3121» (2006), que o fez regressar ao número um do «top» dos Estados Unidos da América, 17 anos depois de «Batman». E antes tinha feito ainda, sem dúvida, outros extraordinários álbuns, talvez até os mais populares do seu «catálogo», como «1999» (1982), «Purple Rain» (1984 - o seu maior sucesso de sempre, um dos mais vendidos de todos os tempos, e a banda sonora de um filme que lhe permitiu ser igualmente número um nas salas de cinema) e «Around The World In A Day» (1985).
Porém, o duplo álbum do «sinal dos tempos» marcou logo a diferença, e desde aí a sua «aura» não tem parado de crescer. Porquê? Porque representou para o artista um ponto de viragem da sua carreira; porque constituiu – constitui – a maior prova da sua flexibilidade e da sua versatilidade, comportando uma notável variedade de ambientes, arranjos, estilos, temas e sons; porque como que «resumiu» o seu percurso até então e antecipou de algum modo as direcções que iria seguir; porque parece assinalar a irrupção de uma certa «heteronímia», de um vago desdobramento de personalidade, se não de corpo, com o aparecimento da personagem Camille. Da balada mais despojada («Forever In My Life») à «funkalhada» mais elaborada («It’s Gonna Be A Beautiful Night»), das cantigas de engate mais ou menos ortodoxas («Hot Thing», «U Got The Look», «If I Was Your Girlfriend») às «trovas» de maior alcance social e religioso («Sign ‘O’ The Times», «The Cross»), das (genuínas ou inventadas?) recordações da infância e da juventude («Play In The Sunshine», «Starfish And Coffee») aos dilemas sentimentais da idade adulta («The Ballad Of Dorothy Parker», «Strange Relationship», «I Could Never Take The Place Of Your Man»), das sonoridades mais «modernaças» («Housequake», «It») às mais nostálgicas («Slow Love», «Adore»), há na verdade um pouco de tudo.
Estas canções formam um magnífico «monstruário» bem demonstrativo das capacidades do «Mago de Minneapolis». No entanto, o que mais impressiona de facto em «Sign “O” The Times» é mesmo a sua consonância com a época em que surgiu, a sua adequação ao «espírito do (daquele) tempo». Não é só pelas referências à SIDA, à violência (televisionada) colectiva e individual, à droga, à explosão do vaivém Challenger «e todos mesmo assim querem voar». No fundo, trata-se do contraste perene entre a grandiloquência e a futilidade das acções humanas. Jim Kerr, dos Simple Minds, terá aliás afirmado, na altura, que o que mais o impressionou no disco foi Prince ter «conseguido captar não só o ano e o mês mas também a semana!»
Será interessante recordar o que alguns críticos portugueses escreveram sobre esta obra há duas décadas. Manuel Falcão, no Expresso, era de opinião de que «tudo leva a crer que “Sign ‘O’ The Times” será mais apreciado amanhã que hoje. (…) Excede todas as expectativas. Frequentemente mais acessível em termos de consumo imediato que os álbuns anteriores, melodioso, tantas vezes insinuante, “Sign ‘O’ The Times” apresenta o melhor lote de canções que se pode encontrar actualmente no mercado dentro de um único álbum, neste caso um duplo LP. (…) É um exemplo de competência e de imaginação, coisas que raramente andam tão juntas como aqui.» João Gobern, no Sete, não duvidava de que o duplo álbum «vem reafirmar aquilo que há muito se sabia: ele é, hoje, a primeira figura da música negra e a personalidade mais imprevisível de todo o “pop” (…) Prince reafirma-se como um dos mais profícuos compositores da actualidade, sem qualquer problema de esgotamento da matéria-prima. E a aposta continua, intensifica-se, radicaliza-se. (…) Boa parte das canções é apresentada quase como se se tratasse de uma “demo”, reflectindo uma táctica de economia que já era sensível em “Parade”, com todos os instrumentos a entrar tão a “seco” quanto é possível, construindo verdadeiras teias rítmicas e alcançando, com esse “minimalismo”, resultados impressionantes.» Rui Monteiro, no Blitz, defendia que «Sign “O” The Times» é «uma espécie de continuação da nova matéria musical inventada por Prince e continuamente por ele desenvolvida. É a prova mais perfeita da sua genialidade, o disco em que mais se encontra, afastada a superficialidade dançável da primeira audição, a beleza de que é capaz a música popular quando não se satisfaz com o seu papel comercial de objecto de entretenimento e quer ser arte maior. (…) Há o revisionismo e a arte na música popular de hoje. Prince é a arte. E há discos que só se abrem ao conhecimento com o passar do tempo. “Sign ‘O’ The Times” é um deles, um dos que vamos estar a ouvir, e a descobrir ainda, daqui a uns anos, quando estivermos esquecidos de todo de quem está em primeiro lugar nas vendas de discos desta semana.» Exactamente…
A reconstrução
Seria talvez legítimo esperar que fosse lançada em 2007 uma «edição especial» de «Sign “O” The Times» como forma condigna de comemorar o seu vigésimo aniversário. Todavia, isso não aconteceu – tal como não aconteceu em 2006 com «Parade», em 2005 com «Around The World In A Day», em 2004 com «Purple Rain», em 2002 com «1999» (este já poderia justificar até uma edição do 25º aniversário)… E porquê? Porque Prince continua, ao que se sabe, de relações cortadas com a Warner Brothers, a companhia para a qual ele gravou a maior - e mais famosa – parte do seu reportório.
Este diferendo, esta disputa, este problema, que já dura há mais de dez anos e para o qual não há solução à vista, tem como consequência que Prince seja praticamente o único dos muito grandes ou grandes nomes da história da música rock cujos discos mais antigos ainda não foram alvo de processos de «revisão e aumento» ou de «melhoramento». Que se traduzem invariavelmente – e bem – na publicação de novas versões com: som remasterizado e/ou remisturado; faixas extra – lados «B» de singles, canções inéditas e/ou versões instrumentais e/ou alternativas das conhecidas; livretes com mais textos – letras das canções, notas de produção, mini-biografias. Um «tratamento» deste tipo beneficiaria imenso a discografia de Prince – porque esta constitui um caso, um exemplo definitivo de quantidade e qualidade de materiais adicionais que se encontram «dispersos» e que já deveriam ter sido «reintegrados». Tal verifica-se especialmente na sequência que vai de «1999» até «Emancipation» - quase 15 anos, de 1982 a 1996! Disto se depreende, e voltando ao álbum que se está aqui a evocar, que o «verdadeiro» «Sign “O” The Times» não é composto apenas pelas 16 canções mencionadas acima e que conhecemos da sua edição original em vinil. A obra-prima do Artista é com efeito muito maior.
Uma das mais famosas «lendas» sobre Prince tem precisamente a ver com «SOTT». Em 1987 correu o rumor de que ele queria editar um álbum, não simples, não duplo, não triplo, não quádruplo, mas sim quíntuplo… e de inéditos! Este seria, por um lado, a sua «resposta» aos «cinco discos de uma só vez» lançados anteriormente por Bob Dylan (compilação) e por Bruce Springsteen («ao vivo»), e, por outro, a sua antecipação àquele que seria o novo disco de Michael Jackson – «Bad», o sucessor, cinco anos depois, de «Thriller», e que suscitava então uma enorme expectativa. A WB não autorizou, e, assim, «SOTT» tornou-se «apenas» um duplo.
Contudo, as «outras» canções existem: foram compostas, gravadas e muitas foram surgindo depois em outros discos. Nomeadamente: «Bob George», «Cindy C», «Dead on It», «Le Grind», «Rock Hard in a Funky Place» e «2 Nigs United 4 West Compton» (de «Black Album»); «Feel U Up», «La La La He He Hee», «Scarlet Pussy» e «Shockadelica» (de «The Hits/The B Sides»); «Crucial», «Crystal Ball», «Da Bang», «Dream Factory», «Good Love», «Last Heart» e «Make Your Mama Happy» (de «Crystal Ball); «Old Friends 4 Sale» (de «The Vault»). E como é que se chega a esta lista? Pela análise e comparação da informação existente, que pode ser de dois tipos. Primeiro, a explícita: canções que foram «lados B» de singles extraídos de «Sign…»; canções que Prince afirma terem serem inicialmente destinadas ao disco mas que, por qualquer motivo, acabaram por não o ser, por exemplo, «”Crucial” – Cool ballad, originally intended for “Sign ‘O’ The Times” album – replaced by “Adore”». Segundo, a implícita: outras canções que se sabe terem sido gravadas em 1987, como as de «Black Album» - várias das quais, aliás, voltam a contar com a personagem Camille; outras canções que devem ter sido gravadas em 1987 por nelas terem colaborado cantores, músicos, orquestradores e/ou engenheiros de som que também participaram nas que integram «SOTT» - como «Crystal Ball» e «Good Love».
Este mesmo «método» pode, obviamente, ser utilizado em outros discos do Artista. Assim: a «1999» devem ser acrescentados «Horny Toad», «How Come U Don’t Call Me Anymore» e «Irresistible Bitch»; em «Purple Rain» faltam «Another Lonely Christmas», «Erotic City», «God» e «17 Days»; de «Around The World In A Day» tiraram «4 The Tears In Your Eyes», «Girl», «Hello» e «She’s Always In My Hair»; e estão por incluir em «Parade» «Alexa De Paris», «An Honest Man», «Love Or Money», «Power Fantastic», «Sexual Suicide» e «Supercalifragisexy». E isto só para falar nos que antecedem «Sign…»…
Porém, incompletas ou não, fragmentadas ou não, as obras de Prince estão aí para serem cada vez mais apreciadas por cada vez mais pessoas. É que na verdade, e felizmente, o Artista atravessa novamente um período de grande sucesso, de fama e proveito. Tudo (re)começou em 2004 com: a sua indução no Rock And Roll Hall Of Fame, logo no primeiro ano em que isso podia acontecer – têm de decorrer no mínimo 25 anos desde a edição do disco de estreia… e «For You» é de 1978; uma actuação fulgurante na cerimónia de entrega dos Grammys (ao lado de Beyoncé); e o êxito do disco «Musicology» e da digressão que se seguiu (a mais rentável desse ano). Em 2005 Prince regressou a uma cerimónia de entrega dos Óscares, 20 anos depois – não para receber mas para entregar um prémio, o de melhor canção. Em 2006 «3121» foi, como já se referiu, número um. E em 2007: ganhou um Globo de Ouro pela canção «The Song Of The Heart» (do filme «Happy Feet»); actuou no intervalo da SuperBowl – a final do campeonato de «futebol americano», o evento desportivo mais popular dos EUA e que é em simultâneo o programa de televisão mais visto daquele país; e lançou um novo disco, «Planet Earth», que no Reino Unido foi distribuído gratuitamente com três milhões de exemplares (!) do jornal Mail on Sunday – causando uma enorme polémica e relançando, mais uma vez, o debate sobre a questão da comercialização da música.
Longe parecem ir os tempos em que um dos mais famosos filhos do Estado de Minnesota era comparado sistematicamente – e muitas vezes desfavoravelmente – a Michael Jackson (ambos nascidos em 1958, tal como Madonna…) Actualmente não parece haver dúvidas sobre quem, em última análise, triunfou. E nem era necessário que «Wacko Jacko» se tornasse irremediavelmente numa anedota grotesca e, por vezes, sinistra. O autêntico, o único «King of Pop» é o Príncipe.
Octávio dos Santos
Artigo publicado no Jornal de Negócios Nº 1159, 2007/12/28 (versão incompleta) e na revista Cais Nº 131, 2008/6 (esta versão)
Comments 1
Caro Octávio,
Posted 04 Nov 2008 at 16:06 ¶li com muito interesse este artigo sobre Prince. Já não ouço Prince há muito tempo, mas concordo com as tuas ideias sobre o álbum Sign O’ The Times, um dos meus preferidos da música americana.
Acho que vou pô-lo no meu ipod e ouvi-lo q.b. nos próximos tempos. Por tua culpa…
Abraços,
João
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