O BARRASCO – Escrita com bolinha quando necessário - Ou seja sempre!

 Antes de consumar com a minha delicada prosa o apego neste espaço de tertúlia de alguns dos meus mais inflamados pensamentos sobre o que quer que seja, e também de alguns confessadamente inapropriados e que só demonstram a minha péssima índole pessoal (mas que se lixe, desde que isso sirva para realizar a minha catarse pessoal) ainda assim como gajo educado que sou, devo aos restantes companheiros deste espaço literário, a minha apresentação pessoal. Até porque os fulanos que por aqui escrevem não aparentam mas são pessoas importantes. Aliás graças a alguns deles já se aniquilaram umas quantas árvores e outros ainda até têm os seus translúcidos tributos fiscais em dia, o que face ao que se vê por aí, é uma coisa do arco-da-velha. Mas acreditem ou não, fui convidado não por ser o “chefe” de um dos insignes que por aqui escreve, mas antes pelo meu talento com as coisas das letras, disse-me o lustrador que comigo labora, mas na verdade com ou sem vocação para escrever, lá aceitei a chamada e cá estou eu a prosar para todos vós. 

Abraço apertado a todos. 

BOM DIA NATAL 

Como entoou o Reininho, efectivamente quando um gajo está bem, que é como quem diz, numa esplanada junto ao mar num amanhecer de domingo sem fazer puto, munido da superior arma que o comum dos mortais pode ter, não me refiro a uma 6,35 mm, semi-automática, mas antes com uma Mont Blanc, High Edition, ofertada pelo Sr. Orlando e de um Moleskine ainda com folhas por rabiscar, até acha piada às pulgas dos cães e ao riso das crianças dos outros. Que maravilha, enquanto dedilho harmoniosamente com a minha confortável caneta algumas letras no bloco de notas, o sol vai mimando-me com algum do seu calor, como que prepara-me para tempos mais frios que imperativamente mas de forma ordeira espreitam a norte, a oportunidade de nos gelarem. No entanto embora a soalheira do astro-rei me acalore o corpo e alma, ainda assim o meu físico está em tremor, pois sofre ansiosamente pela urgente reposição matinal de nicotina juntamente com o agradável aroma que emana a primeira cafeína do dia. Enquanto aguardo a chegada do Salvador, o empregado de mesa com o seu imponente uniforme, a meu ver de super herói, que todos os domingos teima em satisfazer a minha veemente necessidade matinal de me demarcar da minha noite de ilusão, como Reininho, escuto a conversa dos outros e ainda vejo cágados de perna para o ar.E quando já encolerizava o facto de ainda não me ter sido ministrado o meu dulcificado cafezinho, eis que chega Salvador.

- Bom dia Salvador, queria um café por favor! – Requeri eu com o mais encantador sorriso que ao meu semblante é permitido.

- Bom dia não, boa tarde! – Disse-me ele como se estivesse a censurar um qualquer aparte profundo e ordinário da minha parte, como se o facto de eu lhe ter desejado um bom dia ao meio dia e cinco minutos, consistisse numa enorme e profunda lesão da sua honorabilidade pessoal.Se existe coisa que odeio é precisamente esse reparo, tal facto para além de me irritar estragou-me o momento semanal que mais anseio e a prosa que havia decidido lavrar. Mas não era o momento ideal para exercer o contraditório, afinal formalmente ele tinha razão, já passava do meio-dia, e embora pudesse fazer um qualquer reparo ao Salvador pelo facto de achar que havia sido terrivelmente desagradável, eu não podia arriscar, queria mesmo beber o café!Pelo que aguardei a ocasião de o fazer para mais tarde…

Após tomar o meu café que, como se fosse um fadista, foi à guitarra magnificamente acompanhado por um cigarro, perguntei ao Salvador:

- Por favor quanto lhe devo?

- Setenta e cinco cêntimos Sr. Dr. – Respondeu-me ele ainda com aquele superior sorrir sobrevindo do facto de ter remendado o meu bom dia cinco minutos desajustado.Argutamente, sorrindo aparentemente com sinceridade coloquei uma nota de cinco euros sobre a bandeja, e disse-lhe:

- Salvador o troco é todo para si!

Esperando então a sua normal reacção face à actual quadra natalícia que atravessamos…

- Ó Sr. Dr., um santo e feliz  natal, para si e para os seus.

Rindo-me com bastante desdém e realizando finalmente através dele como que a minha purgação face a já outros tantos emendadores de bons dias que me arruinaram o dia, respondi-lhe com ar já quase aliviado… 

- Salvador, já estamos no dia 25 de Dezembro? – Não? – Então vá para o caralho!

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