Ano novo vida nova, enterrem-se os fantasmas, desenterrem-se projectos novos, eu escrevo uma carta que se Deus assim o permitir, irá ser o enterrar de um ciclo e começo de uma nova vida….
Claro está:
“Se Deus assim o permitir…”
Carta a um filho.
Meu querido filho, faz muito tempo que não me memoriava de ti nem das nossas folganças.
O pai não o faz por mal mas o tempo tudo dissipa. E a memória que de ti tenho, meu filho, é infelizmente cada vez menos nítida.
Não sei se és alto ou baixo, até porque pequenino nunca te conheci.
E quais os primeiros vocábulos que pronuncias-te, nem tão pouco se alguma vez a mim me foram dirigidos.
Também não sei se foste amamentado, ou artificialmente nutrido.
Mas sei que és invariavelmente um anjo porque todas as noites foram inalteravelmente serenas.
Sabes…sempre seguro pensei que aprenderias a locomover-te na praia, mas pensando bem não tenho ideia de alguma vez te ver por lá.
Mas tenho boa lembrança da burra que, um dia, te prometi comprar. Mas não já não tenho ideia de alguma vez ta dar.
Apesar de tudo sei que foste um aluno ordeiro porque queixas não tive.
Mas não sei se finalizaste o liceu, até porque nunca te registei.
E mesmo que o tivesse que fazer não sei com que apelido o faria. Até porque também nunca, em algum dia, soube qual te dar.
Só sei que não sou teu herói, porque feitos não fiz. Mas já não tenho tão clara ideia das nossas semelhanças físicas.
Mas sei que terei sempre pronta uma prenda para te oferecer. Mas sei que em nenhum dia, te vou alguma vez ver.
E isto tudo meu filhinho, não é pela falta de amor de teu pai, juro-te, mas apenas e tão só porquanto nunca tu nasceste!

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