Este “pequeno” texto ainda tem “cáries” literárias que não foram removidas. A falta de tempo tem sido a mãe da minha inércia, espero que ainda assim se divirtam a ler como eu me diverti a escrever.Votos de um excelente ano de 2012
A Junção do Bem
A cárie dentária pode ser determinada como uma doença transmissível e infecciosa de origem bacteriana. As bactérias que se encontram normalmente na boca transformam os restos de alguns alimentos em ácidos; tais ácidos, (láctico, acético, butírico, propiônico, etc) formados por um processo de fermentação, atacam os tecidos mineralizados do dente. A sua acção se dá através da degradação de açúcares e da transformação em ácidos que corroem a porção mineralizada dos dentes. O flúor juntamente com o cálcio e um açúcar, chamado xilitol agem inibindo esse processo, contudo o flúor deve ser usado com moderação, devido a sua alta toxicidade. Além disso, quando não se escovam os dentes correctamente e neles acumulam-se restos de alimentos, as bactérias que vivem na boca aderem-se aos dentes, formando a placa bacteriana ou biofilme. Na placa, elas transformam o açúcar dos restos de alimentos em ácido, que por sua vez corrói o esmalte do dente formando uma cavidade, que é a cárie propriamente dita. Vale lembrar que a placa bacteriana se forma mesmo na ausência de ingestão de carbonatos fermentáveis, pois as bactérias possuem polissacarídeos intracelulares de reserva. Do ponto de vista anatómico e microbiológico, existem vários tipos diferentes de cáries: cáries em depressão e fissura; cárie de superfície lisa, cárie da raiz e cáries na dentina profunda.
Etimologicamente a palavra cárie significa material podre.
Mas a Etiologia (aitía + logos) é o estudo das causas. Uma espécie de ciência das causas. Não se deve falar em Etiologia como termo restritivo de uma ciência isoladamente. A biologia, a criminologia, a psicologia, a medicina e várias outras ciências possuem no seu campo de actuação a presença de conhecimento etiológico, visando a busca das causas que deram origem ao seu objecto de estudo. O conceito abrange toda a pesquisa que busca as causas de determinado objecto ou conhecimento.
- Para lá aí com esse teu discurso todo arranjadinho! A causa daquelas cáries todas sei eu! – Grita-me, com veemência, Maria dos Anjos – Tu não vês que eles não têm dinheiro nem para comprar uma escova de dentes, quanto mais irem ao dentista. Aqueles miúdos antes dos 16 anos vão estar com menos de metade dos dentes. E aos 18 os únicos dentes que únicos dentes irão ter são os do siso.
- Maria dos Anjos, pois estou a ver…
- Não estás a ver nada, não sabes de nada! Sabes o que és mesmo? Um Etiologinho tolinho! – Continua a Maria dos Anjos, ainda com um ar mais agitado do que anteriormente.
- Agora não percebi!
- Pois claro, tu preocupaste apenas a tentar descobrir as causas das coisas. Mas já pensaste, em abraçar alguma causa? – Diz Maria dos Anjos, olhando-me de soslaio!
- Claro que sim, imensas aliás. Mas esta é a minha grande causa. Descobrir a causa das coisas.
- E isso serve para alguma coisa? Se os miúdos continuam com cárie? Especialmente o Rui? Já viste bem a boca do miúdo? O miúdo já quase não tem dentes, mal pode comer e faz muito tempo, mesmo muito, que tem o sorriso escondido atrás da vergonha – Desta feita tive que ouvir as suas palavras apenas a 10 cms do meu ouvido direito, por sinal, aquele que melhor ouve.
- Por isso em vez de pensares nas causas que deram origem ao problema, por não pensas antes em resolver o problema, olha que promovias ao miúdo um Natal bem mais feliz! Do que aquele que vai ter. És um traste, como tiveste tu a coragem? – Grita ainda mais alto Maria dos Anjos ao ouvido que até então estava em melhor estado.
- De…
- DE FAZER AQUILO AO MIÚDO!!!! – Desta feita a 2 cms do já citado ouvido!
Descuidei-me, é verdade, mas já não aguentava muito mais: - Tu é que és a grande culpada disso! Pára de atirar as culpas para cima de mim! Quem te mandou pedir-me para escrever uma história de Natal realista este ano? Os miúdos pobres não têm dentes e foi isso precisamente que escrevi! Eu apenas estou a tentar fazer o relato mais realista possível sobre uma família pobre. Mas agora não paras de me culpar!
- Estás a gritar-me? -Diz-me ela com ar espantado.
- Não, achas?
Forçando o meu queixo a estar alcantilado com o seu, diz-me. - Olha-me nos olhos, para ver se me estás a mentir?
- Claro que não, mas se estivesse vias isso através dos meus olhos?
- Claro que sim, eu sei pelo teu olhar se aquelas palavras foram de cólera ou apenas desabafo! – Diz-me ela como se me estivesse a desafiar, após que, desata a chorar.
- Eu não te estava a olhar com raiva Maria dos Anjos.
- Eu sei – diz ela soluçando.
- Então porque choras?
- Porque tenho tanta pena do miúdo. – a voz desta feita, está, completamente embargada.
- Também eu,
- O que vamos fazer – Diz ela vergada entre as suas pernas.
- Não sei…
- Não podes apagar o que escreveste?
- Não!
- Porquê?
- Não faço ideia, mas penso que é devido ao facto de nunca ter tido qualquer necessidade de o fazer.
Com ar de troça diz-me ela: - Ou seja, ainda não abordaste o problema etimologicamente!
- Não me gozes!
- Desculpa! Não resisti a fazer a piada, não o devia ter feito.
- Estás desculpada.
- O que vamos fazer para ajudar o miúdo? – Diz-me desta feita com um ar bastante sério, mas com um olhar plenamente cândido, como se visse em mim a salvação do seu problema.
Que era: ter que viver a saber que o pobre Rui, personagem de uma triste história de Natal, iria passar, o Natal amputado dos seus dentes. O que não era um grande problema em termos alimentares, pois os seus poucos dentes davam bem conta do recado, a comida que por eles era processada também não era muita. E se bem que, como também não tinha muitos motivos para sorrir se calhar os dentes também nesse aspecto não lhe fariam, durante o resto do ano, muita falta. Mas era Natal, a história que a Maria dos Anjos, me incumbiu de escrever, era acerca de uma família pobrezinha que não tinha nada, mesmo nadinha, mas que no Natal, recebeu umas prendas maravilhosas. Pelo que, após as receberem, ficariam todos maravilhados e por esse motivo todos contentes e sorridentes. Todos? Todos não! O Rui, não poderia sorrir, ele não conseguia levantar o véu da vergonha, nunca desde que perdera a maior partes dos dentes visíveis do sorriso.
- O que sei é que jamais podemos apagar o que está escrito! Mesmo que apague o texto com uma borracha, ou esburaque a folha de papel para remover a caracterização da personagem, ele irá sempre a manter os mesmos traços quer psíquicos e físicos.
- Eu sei – diz Maria dos Anjos com um ar resignado – ainda para mais, é um conto de Natal.
- Sim, ainda para mais é um conto de Natal.
- Mas podias ao menos adicionar um qualquer elemento ao conto, não podias? De forma a minimizar o sofrimento do miúdo. – Interroga-me com ar já de algum desespero.
- Acho difícil, não estou bem a ver como o poderei fazer, uma vez que: As células do epitélio bucal formam o órgão do esmalte, e as células mesenquimáticas formam a papila dentária. A interação das células epiteliais e mesenquimais é vital para o processo de iniciação e formação dos dentes. Juntamente com essas células, as células da crista neural contribuem para o desenvolvimento do dente. As células da crista neural originam-se dos tecidos nervosos em um estágio inicial do desenvolvimento e migram para as maxilas, misturando-se com as células mesenquimáticas. Elas funcionam pela integração com as células da papila dentária e com as células epiteliais do órgão de esmalte inicial, o que auxilia no desenvolvimento dos dentes. Essas células também participam da formação das glândulas salivares, osso, cartilagem, nervos e músculos da face. O primeiro sinal da formação dentária é o desenvolvimento da lâmina dentária, surgindo a partir do epitélio bucal. A lâmina dentária desenvolve-se em um folheto de células epiteliais que invadem o mesênquima subjacente, nas cercanias do prímeiro da maxila e mandíbula. Na borda anterior da lâmina, 20 áreas de espessamento aparecem, as quais formam os botões dentários para os 20 dentes dedíduos. Nesse estágio inicial, os botões já determinaram a morfologia de sua coroa, seja de incisivo ou de um molar. Isso se deve à expressão genética. Depois que os dentes decíduos desenvolveram-se a partir dos botões, a borda anterior da lâmina continua a crescer para desenvlover os dentes permanentes que sucedem os 20 dentes decíduos. Essa parte da lâmina é então denominada lâmina de substituição. A lâmina continua posteriormente dentro da maxila em crescimento e desta surgem os dentes posteriores, os quais se formam atrás dos dentes decíduos. Desta maneira, 20 dos dentes permanentes substituem os 20 dentes decíduos, e os 12 dentes posteriores molares permanentes desenvolveram atrás da dentição decídua. Os últimos dentes que se formam são os terceiros molares, os quais se desenvolvem cerca de 15 anos após o nascimento. Uma vez que os molares não substituem os dentes decíduos, eles não se originam da lâmina de substituição, mas directamente da lâmina dentária. A lâmina dentária inicial, que se origina tanto a lâmina dentária como a de substituição, inicia sua função na sexta semana pré natal e continua até os 15 anos.
- Desculpa lá o que queres tu dizer com isso? – Exalta-se novamente Maria dos Anjos
- Ou seja: Entre os seis meses e os três anos, toda a dentição humana é temporária, também chamada “de leite” ou decídua. É composta por 20 dentes, 10 na mandíbula e 10 na maxila, e é trocada dos seis aos onze anos. O último a cair é o segundo molar decíduo. O siso - o terceiro molar - costuma aparecer aos 21 anos; por isso ficou conhecido como “dente do juízo”.
- Hum, isso quer dizer o que? – Diz Maria dos Anjos, enquanto fechando as mãos com bastante força para que a pressão que estava a sentir naquele momento, não se escapasse por via oral.
- Isso quer dizer que o Miúdo como já tem mais de 11 anos, não irá ter de certeza uma segunda dentição.
- E para me dizeres isso era preciso debitares tanta informação? És mesmo um etiologinho tolinho.
- Algumas vezes…
- Anda lá tolinho, passando-me a mão sobre o cabelo, o pouco que ainda me resta, eu acho que és capaz de fazer melhor, vê se consegues, compor a história de maneira a que pelo menos o Miúdo tenha sempre um Natal feliz, está bem?
- Vou tentar.
- Tenta, olha entretanto, enquanto tu dás a “volta” à história, eu vou fazer um bolinho de iogurte para logo nos acompanhar num filme, está bem?
- Sim querida.
Passadas não mais que algumas horas.
- Então, conseguiste? – Diz-me ela com um largo sorrir.
- Pelo menos no Natal, ele parece-me que vai ser sempre feliz. Queres ler?
- Não, eu até não estava a gostar muito da história! Olha, estou mais voltada para irmos sair um bocadinho e vermos umas montras. Sabes que no Almada Fórum tem uma loja nova de sapatos, disse-me a Marisa que tem lá umas botas muito engraçadas e por um preço sensacional.
- Mas estavas tão preocupada!
- Pois estava, eu não conseguia estar bem a sabendo que aquela criança não tinha maneira de sorrir no Natal.
- Mas a criança era apenas um personagem de uma história!
- Personagem ou não, uma criança é sempre uma criança! – Diz-me Maria dos Anjos com os olhos completamente arregalados.
- Pois..
Passadas umas horas…
- Deixas-me ler o que escreveste?
- Ó Maria dos Anjos, ainda há pouco disseste-me que não tinhas interesse.
- Eu não disse bem isso, eu disse que naquele momento não tinha interesse, pois tinha que ir ver as botas! – Denota-se neste momento uma pequena alteração na voz dela.
- Por acaso até disseste que não estavas a gostar da história!
- Eu? Dizes cada coisa, eu estava adorar a história, eu adoro quase tudo o que escreves!
- Quase nada, diria eu!
- Não sejas assim, sempre irritante. Olha, senão queres deixar-me ler não deixes! – Diz-me Maria dos Anjos voltando a cara para o lado.
- Eu deixo, vá toma lá!
- Que coisa! Fazes-te sempre difícil!
- Eu?
- Olha lindo, deixa-me ir buscar os óculos! Senão sabes que não consigo ler nada, isto está cada vez pior!
- Sim, sim, meia dioptria em cada olho é capaz de ser coisa grave…
- Lá estás tu a ser irónico, se tu tivesses este meu problema eu queria ver, sabes lá tu o que é ter dificuldade até para ver os preços das montras.
- Pois, deve ser terrível…
- Olha eu pelo menos, se tu tivesses este problema, preocupar-me-ia contigo, tu só sabes ser criticador e maçador. Mas olha, não quero mais conversas, deixa-me é ver o que fizeste com o miúdo porque é com esse que estou preocupada.
Ao entregar-lhe umas quantas folhas soltas, diz-me ela:
- Dá-me só as folhas respeitantes à alteração que fizeste, não vale a pena ler o resto da história pois já a li.
- Está bem…
Segurando as folhas de papel com o seu peito, Maria dos Anjos, saí apressadamente a caminho da sala de estar, quando estava quase a chegar:
- Por acaso sabes onde estão os meus óculos?
- Estão na tua mesa-de-cabeceira!
- Podes-me os alcançar?
- Sim…
Após lhe entregar os óculos, saí nervosamente para a varanda, empunhando um cigarro, como se estivesse à espera do veredicto de um qualquer júri qualificado. A qualificação académica da Maria dos Anjos, não é eminente, mas os reparos que faz ao que escrevo, deslindam, de jeito inacreditável, a morte do meu eu, ou a fome de voltar a fazê-lo, por isso, fico sempre desassossegado, mas ainda assim cativo, face ao seu primeiro, porque espontâneo, reparo que me possa fazer.
Segurou os seus óculos, na pendência inferior do ser esbelto mas, marcante nariz, e começou a ler, enquanto lia, eu impacientemente, lembrava-me de cada palavra do que acabara de escrever na sua precisa ordenação.
“- Pai, acha que o Pai Natal, este ano vem mais cedo? – Pergunta Rui a seu Pai.
- Não sei filho, eu só sei que ele durante os onze anos que tu tens, ele vem sempre a nossa casa, mas só chega quando estamos todos a dormir.
- Os meus colegas dizem que o Pai Natal não existe, mas ele vem todos os anos cá a casa. – Diz Rui a seu Pai, esboçando um sorriso que esbarrou na sua percepção do estético! O que levou o miúdo a perguntar: - Pai, achas que aquilo que o Presidente da Junta nos disse era verdade? Achas que vão mesmo colocar-me uns dentes durante o ano que vem?
- Não leves isso a sério, ele é um político e estamos em tempo de eleições. – Diz friamente o seu Pai.
De imediato os olhos de Rui, ficaram preenchidos, com lágrimas que esbarraram, desta feita, não na percepção do estético, antes na ideia de que ao chorar entristeceria ainda mais aquela já de si, mórbida consoada de Natal.
Seu Pai apercebendo-se que o seu filho engolia uma dose excessiva de tristeza, passou-lhe a mão pelo cabelo, beijou-o, gestos que lhe eram bastante raros, verdadeiras prendas de Natal.
- Uma boa noite filho.
- Boa noite Pai.
Já após o Pai ter encostado a porta, grita Rui: - Pai,achas que ele vai faltar este ano?
O que obrigou o seu Pai a voltar atrás: - Rui não sejas tolo, se não confiarmos no nosso Pai Natal, vamos confiar em quem?
- No Pai!
Contendo um soluço de choro que fazia anos espreitava mas que nunca se tinha revelado, o Pai do Rui, encosta de vez a porta: - Dorme meu bom filho, encerra os olhos com força e pede um desejo que amanhã terás uma surpresa.
Obediente, Rui, reflexamente encerra os olhos de imediato, com bastante força, aquela força que nos impele a extrair o espírito do corpo e a vaguear pelo espaço desconhecido. Nesse seu mundo por desbravar Rui via-se um miúdo como os outros, a rir, sem vergonha, a mostrar os seus sentimentos, sem qualquer auto restrição. Esta sensação traduzia-se numa inigualável sensação de liberdade e de interacção com todos os demais. Rui quando estava resguardado pela escuridão, era uma criança feliz. Ria e sorria com as patifarias e diabruras, que ficaram por realizar durante o dia. Por isso de noite adormecia sempre tarde e acordava sempre exausto, pois a noite para ele, era o momento em que sem restrições podia verdadeiramente galhofar.
Tanto brincou que a estafa, carinhosamente, como se fosse um regaço materno, embalou-o até adormecer.
Sem saber por onde entraram, passeiam-se pela casa, inúmeros e minúsculos Pais-natal; miniaturas, do conhecido Pai Natal, mas ao contrário do normal estão vestidos como o original; de verde! Parecendo por isso pequenos duendes. No conjunto, as suas feições, tamanho, velocidade frenética com que se deslocavam, tom de voz e o próprio sotaque dava-lhes, a final, um sacrossanto ar de diabinhos.
- Estan todos a dormirre?
- Estan chefe! – O chefe era igual aos demais, tamanho, roupa, tom de voz, inclusivamente a velocidade frenética com que desempenhava as tarefas, apenas, um ligeiro pormenor o distinguia dos demais, a sua barba era ligeiramente mais comprida, facto que só um observador muito atento poderia assinalar.
- Entan vamos dividirre-nos em duasse equipasse, a primeirra trata dosse pedidos regularesse a segunda do pedido especialle.
- Podemos nos despedirrer dos nossosse camaradasse do pedido especialle chefe?
- Vá, masse que sejan uma coisasse rápidasse! – Diz o chefe autoritariamente.
Nisto vê-se um grupo de largas dezenas abraçar, oito dos pequenos duendinhos natalícios que, estrategicamente se coordenaram de modo a se isolaram dos demais.
- Adeus amigosses, até breve, daqui a um máximosse de cem anosses já estaran de voltasse.
- Cem anosses passam muitosse depressasse! Mal dásse para gozarer umasses verdadeiras férias, longuesse de vósses! - Diz um dos pequenos que se destacaram, com um ar bastante bem disposto.
- Ebgraçadinhosse! – Grita um do grupo mais numeroso. – Tiverrem foi sorterre de tirrarem os númerrros certosses. Mas em breverre estaran a trabalhar na fabricasse de briquedosses de novo!
- Natalinhosses está na horra, temosse muito trabalhos pela frentesse! Chegou o momentosse!
Mal ouviram o grito de ordem do chefinho, o dois grupos formaram como se fossem um batalhão de soldados alinhados primeiro em fila em indiana e depois quando o chefinho gritou – Alinharrer. – Ficaram todos lado a lado voltados para o chefinho.
- Cada um de vósses conherrer a sua tarrrefa. E o momentosse de a desempenharrem chegou…AGORRA!
Sem mais, freneticamente, o grupo mais numeroso de duendinhos começaram a voar em direcção à chaminé da casa, primeiro em voo perfeitamente agrupado, depois, separaram num enorme frenesim, entrando e saindo da chaminé a uma velocidade enorme, verdade é que em menos de dois piscares de olhos e meio, já se encontravam exuberantes embrulhos que atestavam esconder esplêndidas lembranças para toda a família. Após o feito todos esses duendinhos formaram uma sorridente fila. De seguida todos eles, inclusive o chefinho, retiraram do bolso, um pequeno lenço branco e acenaram-no na direcção dos pequenos oito que haviam permanecido isolados.
Nisto grita a boa voz o chefinho – Estan na vossasse horra! Boa sorterre!
Com ar feliz pela incumbência, os pequenos oito partiram em voo, alinhado em direcção ao quarto onde dormia o Rui. A porta aparentava estar fechada, mas após, alguns voos dos pequenos junto à maçaneta, aquela abriu-se como que por artes mágicas.
- Vai vererre se estarre a dormirre! – diz uma das pequenas criaturas ao seu semelhante que se encontrava mais perto . Em menos de um quarto de piscadela de olhos, o mandado voltou: - Estárre a dormirre profundamente!
Nisto as oito pequenas criaturas voam na direcção do pequeno Rui, detendo-se junto da cabeça do miúdo, voando à sua volta, num compasso de espera, observando-o com alegre atenção, efectuando voos rasantes entre eles, como se estivessem a brincar à apanhada. Quando de repente um deles, grita: é agora! - e aproveitando o abrir da boca do pequeno envia-se dentro da mesma o que gerou uma desmesurada excitação ente os demais duendinhos. Este processo de entrar dentro da boca do pequeno Rui foi repetido uma e outra vez, até os oito pequenos bons diabretes se encontrarem todos em cima da língua do pequeno, o que lhe devia provocar algumas cócegas, pois ficou durante algum tempo um pouco agitado. Passados alguns minutos, quando o Rui já estava mais estável, ouviu-se um dos pequenos duendinho gritar: - Ligar luzes e acção! – Nesse momento todos ligaram uma nano lanterna que tinham na mão e começaram a girar no ar como se fossem piões, posteriormente cada um deles enterrou-se numa das gengivas que estavam vagas, completando os espaços que fazia algum tempo tinham sido ocupados por dentes.
De manhã o Rui quando acordou nem queria acreditar, tinha todos os espaços da sua boca totalmente preenchidos. Podia agora comer todo o que quisesse, mas ao mesmo tempo surgiram, também, algumas particularidades que teria que aguentar o resto da vida. Enquanto comia, os pais natal, tornavam-se hirtos e duros, como se fossem os dentes que precocemente o nosso amiguinho havia perdido. Quando sorria os pequenos pais natal, esbracejavam com vigor, soltando gargalhadas estridentes, visíveis por todos.
Enquanto ainda criança o Rui tornou-se uma atracção permanente, primeiramente do bairro, mas tarde do país e mais tarde ainda de todo o continente. Com o dinheiro que gerou a originalidade, que chegou mesmo a ser moda em muitas regiões, fez com que a família deixa-se de ser pobre, embora o Rui cedo deixasse de estudar, todos os seus irmãos chegaram mesmo a tirar cursos superiores. Mais tarde, quando o efeito novidade amainou, o Rui deixou rir durante todo o ano, como fazia nesses tempos, só rindo e exibindo, o que agora escondia durante todo o ano, os pequenos duendinhos durante a época de Natal. Pois achava ridículo o gesticular extravagante dos pequenos pais natal, que até ao fim da vida o acompanharam.
Após ler o texto, Maria dos Anjos, secamente disse-me: - Olha que podias ter feito melhor que isto. Mas está bem, pelo menos no Natal o miúdo podia sorrir.
- Pois a ideia era essa!
Olhando-me bastante incisivamente, diz-me desta vez pausadamente: - Sabes porque é que nunca serás um grande escritor? Porque chegas a ser patológico senão mesmo arrevesado no que crias! Liberta-te homem!
- Vou tentar! – Disse-lhe eu fingindo que o seu comentário não me havia afectado, nem sequer mesmo ao de leve,
- Olha vou-me deitar! Mas acho que vou dormir a casa dos meus País! – Os seus País já haviam falecido e a casa era como que o seu santuário. Normalmente o santuário da punição dos meus comportamentos.
- Está bem até amanhã! – Mal acabei de pronunciar a última sílaba, neste caso “nhã”, ouvi a porta da entrada a fechar com todo o vigor.
Ao ouvir, pensei: - Que se lixe, vou aproveitar para fumar um cigarro, quando, desconcertado denotei que Maria dos Anjos havia levado o maço que sobejava. Instantaneamente a minha mão direita, com plena autonomia da sua vontade, jogou-se ao cinzeiro; e porque a luz não era muita, apalpou todas as beatas à procura da maior. Após o escrutínio, levantei-me fui para a janela e aproveitei todo o prazer que aquele coto de tabaco me poderia proporcionar, detendo toda a minha atenção no alaranjado planeta guerreiro, que sempre venerei. Ao olhar para ele deliciava-me a pensar nos demais que como eu, armazenavam naquele globo da veneração, os seus pavores e inquinações, e ao mesmo tempo esgaravatando, colhia a coragem que àquele astro sobeja. Quando me sentia restaurado, cheio de força e confiante nas minhas virtudes pela primeira vez naquele dia; eis que, sem aviso, vi o meu coto de cigarro a ser apagado por uma perversa gota de água que se havia tresmalhado do abundante aguaceiro que então se havia instalado.
- Afinal o céu estava nublado!!!!!
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