Antes foi o coração em «Eat Me Drink Me», os dois «M» estilizados (segundo a estética nacional-socialista?) em «The Golden Age Of Grotesque», o símbolo «lunar/masculino/sacrificial» em «Holy Wood», o comprimido em «Mechanical Animals», o relâmpago/«sinal de perigo eléctrico» em «AntiChrist Superstar», o chapéu em «Smells Like Children»…
Agora, a imagem estampada no seu mais recente disco, «The High End Of Low», é muito significativamente, uma bobina – que, presume-se, quando dentro de um (ligado) leitor de CD’s, «desenrolará» o filme, ou um dos filmes, da sua vida… E a «sequência», ou seja, a canção, mais importante deste «filme» é «I Want To Kill You Like They Do In The Movies», nove torturantes minutos em que um desvairado «realizador» descreve aquilo que pretende fazer à sua «actriz» principal: «Eu quero foder-te como num filme estrangeiro, e não existem legendas para te ajudar enquanto ele durar. (…) Alinhem, rolar câmara, tu finges, eu finjo, e corta, corta, corta, corta. (…) Eu quero matar-te como eles fazem nos filmes, mas não te preocupes, existe outra como tu, à espera na fila. (…)»
Será este, na verdade, o canto despeitado de um homem que se viu abandonado pela sua amante… ou seja, Evan Rachel Wood? Pouco menos de dois anos antes, em 2007, a situação era diferente… e semelhante: em processo de separação e de divórcio da dançarina e modelo «burlesca» Dita Von Teese (nome artístico de… Heather Sweet!), Marilyn Manson aceitou ser «cobaia» de James Cameron em mais uma experiência do realizador com o sistema 3D que ele já estava a utilizar em «Avatar»: a rodagem do vídeo para a canção «Heart Shaped Glasses» proporcionou várias referências a «Lolita» de Vladimir Nabokov… e de Stanley Kubrick, e também muitas cenas de sexo tórridas (há quem diga que foram mesmo explícitas) entre o gótico cantor e aquela que era então a sua «musa». Wood tem-se destacado enquanto intérprete, entre outros filmes, de «Running With Scissors», «Across The Universe» e «The Wrestler»; e a própria Teese também já está a construir um interessante currículo na sétima arte, com personificações de Gala Dali e de… Mata-Hari!
Para Brian Warner, a sua (muito forte) ligação ao cinema começou, como se sabe, na escolha que fez do seu nome artístico: «Marilyn» de Marilyn Monroe e «Manson» de Charles Manson – psicopata que ficou famoso por ter assassinado, entre outros e nomeadamente, Sharon Tate… (outra) actriz que era então a esposa, grávida, de Roman Polanski… Nascido no Ohio e crescido na Flórida, o cada vez mais confiante «God Of Fuck» acabaria por se instalar, quase naturalmente, na Califórnia… aparentemente por causa de Rose McGowan, actriz que se viria a notabilizar mais recentemente em «Death Proof»/«Planet Terror» de Quentin Tarantino/Robert Rodriguez. Então noivos, em 1999 Rose terá possibilitado a MM um dos seus primeiros (pequenos) papéis – fazendo de «estranho» - num filme onde ela era uma das protagonistas: «Jawbreaker», de Darren Stein. Manson foi também: «estrela porno» em «Lost Highway» de David Lynch; «Christina» em «Party Monster» de Fenton Bailey e Randy Barbato – encarnando uma das muitas figuras excêntricas que de facto assombraram a cena clubística nova-iorquina na viragem dos anos 80 para os 90; «Jackson» (um pedófilo) em «The Heart Is Deceitful Above All Things» de Asia Argento; «empregado de bar» em «Rise» de Sebastian Gutierrez.
Entretanto, as suas canções integraram, entre outras, as bandas sonoras dos filmes «Natural Born Killers» («Cyclops»), «Strange Days» («Get Your Gun»), «Lost Highway» («Apple Of Sodom»), «Private Parts» («The Suck For Your Solution»), «Spawn» («Long Hard Road Out Of Hell»), «The Matrix» («Rock Is Dead»), «Book Of Shadows: Blair Witch 2» («Disposable Teens»), «Valentine» («Valentine’s Day»), «From Hell» («The Nobodies»), «Bowling For Columbine» («The Fight Song»), «Saw II» («Irresponsible Hate Anthem») e «Hatchet» («This Is The New Shit»). E colaborou com Marco Beltrami na música original de «Resident Evil».
Embora importantes, todos estes créditos serão cinematograficamente insignificantes se Marilyn Manson finalmente concretizar - depois de escrever, produzir, realizar, interpretar e musicar – o seu maior projecto artístico «não rock & roll»: «Phantasmagoria – The Visions Of Lewis Carroll», um filme que tem por tema a vida e a obra do autor de «Alice no País das Maravilhas», anunciado desde 2005 e sucessivamente adiado, (ainda?) com Lily Cole (modelo e actriz inglesa) no elenco, e que de momento tem 2010 como data prevista de lançamento… Porém, e para complicar mais a situação, este ano foi noticiado que MM estaria a preparar outro filme: uma «versão musical» de «Cinderella» que seria protagonizada por… Emma Watson – sim, a Hermione Granger da saga «Harry Potter»!
Evan, Lily, Emma… cada uma das três tem perto de 20 anos. Afinal, talvez seja «Beauty And The Beast», e não «Willy Wonka And The Chocolate Factory», o filme favorito de Brian Warner.
MM na SS
Marilyn Manson é um artista cuja totalidade da obra (isto é, álbuns de originais, não incluindo compilações e registos ao vivo) está incluído na Simetria Sonora, projecto desenvolvido na Simetria/Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico e que tem como objectivo procurar, identificar, listar e divulgar discos cuja temática se insere, precisamente, no âmbito da FC & F…. porque esta área não tem de se restringir à literatura e ao cinema.
Iniciativa original e provavelmente única, quer nacional quer internacionalmente, a Simetria Sonora contém actualmente 200 discos, tanto de artistas estrangeiros (em número superior) como de artistas portugueses, cujos «temas (na sua totalidade, maioria ou até numa minoria significativa e preponderante), os sons, as suas letras, a ideia-chave ou o conceito principal – incluindo gráfico e audiovisual (capa, livrete, vídeos) – os colocarem num “género” que poderíamos designar de ficção científica e fantástico; e que pode incluir, além de futurologias diversas e de revisionismos históricos variados, o bizarro, a fantasia, o terror, o horror… Ou nem tanto: contos de fadas, estados alterados, sonhos e pesadelos, realidades alternativas ao estilo “Quinta Dimensão”.»
Enfim, um «espectáculo» em que o cantor de «If I Was Your Vampire» é sem dúvida uma das maiores «atracções».
Marilyn Manson, ou seja, Brian Hugh Warner, celebra hoje o seu 41º aniversário.
Artigo publicado na revista Blitz Nº 42, 2009/12.
Octávio dos Santos