Através do preenchimento e do envio do documento correspondente, subscrevi a «Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990». Quem quiser fazer o mesmo deve ir aqui.
Octávio dos Santos
Na edição de hoje (Nº 7659) do jornal Público, e na página 32, está o meu artigo «Propaganda e provocação». Um excerto: «Não se está a afirmar que todos os trabalhadores e colaboradores da RTP sejam cúmplices activos das regulares manobras de manipulação que nela se concretizam – e que, em alguns momentos, quase colocam a televisão oficial portuguesa na mesma (falta de) “categoria” das suas congéneres chinesa e norte-coreana. No entanto, sem dúvida que aparecem como espectadores (ou será “espetadores”?) passivos da crescente degradação da empresa, onde a aplicação do “acordo ortográfico” constitui disso o sinal mais recente.»
Octávio dos Santos
De vez em quando protestava em silêncio, hoje não consigo mais esconder de mim próprio a falta de benevolência que a minha alma tem para comigo. As almas são como que efectivas esponjas do certo e do errado que ladeia a nossa vida. Absorvem coisas más, péssimas terríveis, que de modo seguro a infectam, precisando para manter a sua correcta e sã textura de elevadas vivências, já agora, santas e puras. O que não quer dizer que o input tenha que ser igual ao output. Não, de todo! Longe disso! A alma para se manter animada precisa de um ínfima parte de bem relativamente a um todo de mau. Nunca efectuei um estudo aturado quanto a esta matéria, mas diria que alma precisa de uma parte de vinte para que a sua elasticidade e vigor se mantenham. Claro que, ainda que a alma tenha uma correcta proporção dos elementos enunciados, ainda assim precisa de ser exercitada. Ao exercitar-se a alma, hoje, através dos correctos exercícios, espirituais e carnais, sim porque a proteína carnal também alimenta a alma, consegue-se, em alguns casos alcançar uma maior vida eterna. Uma maior vida eterna, dizem vós? Sim uma maior vida eterna! Não foi um lapso é uma realidade absoluta.
“Dejalo si quieres continuar (hermano)
Sal ilumina tu vida
Todo el cielo aplatandote
Dime que hars (intentalo)
Ilumina ese amor
Antes que se vaya
Algo siempre te entristese
Cuando todo va bien
Que pasa contigo?
Algo siemre te entristese
Cuando todo va bien
Que pasa contigo?
Que pasa contigo?Dejalo si quieres continuar
No ocultes tu alma al sol
Tienes una vida preciosa
De que sirve si solo
Mueres suavemente”
Desculpem a perturbação, desde há uns dias a minha alma sintoniza-se com a América Latina, escutando as súplicas, preces e orações de almas tresmalhadas em galhofeira agonia. Ligo-me, involuntariamente a elas, e só quando a carga edílica cessa, é que consigo retornar aos meus pensamentos pessoais. Sinal evidente de que o meu input negativo já ultrapassou o ponto anterior ao ponto de não retorno! Não enunciei anteriormente que a alma quando está em absoluta carga negativa, alterando a sua forma óptima, tem tendência para se tornar viciada em cargas negativas, acabando, a final, por se tornar num áspero e desgastado espírito. Todas as almas têm naturalmente essa propensão, razão pela qual, eu tenha referido que uma alma optimizada tenha uma maior vida eterna. A manutenção da alma em vida eterna advém sem dúvida alguma do estado em que a sua santidade é inatacável. Muitas almas, acredito que a maior parte até, conquistam a vida eterna no Paraíso, mas a sua resistência à eternidade depende, em muito, da sua manutenência em santidade. Se na terra o input do bem é efémero, no Céu este é total. Se alma não mantiver todas as suas as carótidas em estado impecável, e viçosa elasticidade (que advém de um correcto e doseado exercício, como se viu) torna-se preguiçosa. Ora, como não poderia deixar de ser, uma alma preguiçosa deixa de ser santa, pelo que não poderá viver em santidade e terá que, necessariamente, abandonar a santa vida eterna. Sendo transferidas para o Purgatório vivendo sob condição e sujeitando-se a ora a um processo de purificação ou a um castigo temporário (depende proveniência da alma e do estado em que esta se encontra) para serem então amanhadas, as necessárias vezes, até que estejam prontas a reconquistar o reino dos céus (a vida eterna, necessariamente no Paraíso). As que não que não conseguem suportar, em alguns casos, o exasperante tempo necessário à sua elevação ao Paraíso, são levadas ao Inferno para que este, através de eivados e complexos processos de incineração, as reacondicione ao seu estado mais ínfimo de modo a que renasçam, por incorporação, num qualquer nascituro. Quando popularmente se diz que “aquela criança parece que tem o diabo no corpo”, nada é mais acertado, pois a alma fazia pouco tempo atrás ainda estava no referido processo de reciclagem.
“Que pasa?
Que pasa contigo?
Que pasa contigo?
(Mi hermano)
Que pasa contigo?
Escucha a tu propia voz
Salva tu amor
Que pasa contigo?
Antes que se vaya
Si todo va bien
Que pasa contigo?
Que pasa contigo?
Mirate a ti mismo
Enfrentalo
Que pasa contigo?
Mi hermano
Ven animate
Que pasa contigo?”
As perturbações e as involuntárias sintonias américo latinas continuam e agravam-se, antes estas, em que sempre entendo algo, que as anteriores, que penso, provenientes do leste da Europa, em que alcançava a sua dor, mas não necessariamente o seu conteúdo. Desculpem-me todo este desabafo, e a introspectiva enxurrada de concepções acerca da alma, mas sinto-me agastado, e sem lugar na minha alma, para guardar tantos pecados e dúvidas que me fazem, quase que obrigatoriamente, conhecer. Hoje, ao contrário de outros tempos, sinto que os paroquianos já não vêm à igreja confessar-se para serem ajudados na sua purificação, mas antes para me transferirem os seus pecados.
Chamo-me António Ribeiro, sou eclesiástico, faz oito anos, e hoje, como em todos os dias, é dia do Sacramento da Confissão e a meu cargo tenho quatro paróquias.
E este é o meu actual estado de alma!

Após o ter apresentado, em 2010, na Amadora e em Beja, em 2011 o meu querido amigo Paulo Monteiro, que conheço há mais de 25 anos, voltou a Alverca do Ribatejo para apresentar o seu primeiro livro.
«O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias» é constituído por dez pequenas narrativas que demonstram outras tantas abordagens, estilos, formas de abordar o – muito peculiar, pessoal – universo fantástico do seu autor. Universo esse em que as linhas, os traços se transfiguram continuamente, em que as pessoas se podem confundir, ou até mesmo transformar, em animais e em árvores, em que as dimensões não são constantes, em que os tempos não são lineares. Enfim, em que as leis da Natureza não se aplicam… só a vontade do artista. Todas as mutações são possíveis desde que sirvam e valorizem uma ideia, uma história, um sentimento relevante.
Os únicos «defeitos» de «O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias» são… ser demasiado pequeno (68 páginas)… e tardio: já há muito que nós, os seus amigos e admiradores, esperávamos que o Paulo Monteiro finalmente reservasse, para a elaboração de um livro seu, uma pequena parte do esforço e da disponibilidade que tem aplicado, há mais de uma década, na organização, participação e divulgação de muitas iniciativas relacionadas com BD – não só no Alentejo, que se tornou o seu território (e que lhe deve a criação de uma bedeteca e de um festival), mas também no resto do país e até no estrangeiro. Após tantos anos a apoiar outros autores já era altura de ser ele o protagonista… e merece-o. Tanto que é igualmente um dos 41 criadores presentes na exposição «Tinta nos Nervos – Banda Desenhada Portuguesa», no Museu Berardo, em Lisboa, até 27 de Março.
Octávio dos Santos
Quando Karl e não falo do Carl Heins Romenigga (antiga glória do futebol da RFA) mas antes do Marx, que não do
Max (ou Maximiano de Sousa madeirense que nos cantava em todos os natais dos hospitais
a mula da cooperativa) escreveu o seu Manifesto referiu que:
“Por burguesia compreende-se a classe dos capitalistas modernos,
proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho
assalariado. Por proletariado compreende-se a classe dos trabalhadores
assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem
obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir.”
Compulsando,
profundamente, a anterior sentença, denota-se com facilidade relativa que quer
os capitalistas, quer os trabalhadores eram modernos. O amigo Marx que, que
acreditava na igualdade de classes com consequência máxima da dialéctica (ó Sócrates
não sei se assim se escreve assim!) entre as classes sociais, esqueceu-se,
talvez não inocentemente, dos desgraçados dos pós modernos.
Será que ele, com
a sua enorme sapiência, saberia que um dia,AQUELES, diriam: “Deus
está morto, Marx também e eu não estou me sentindo muito bem!”
Sabendo ou não, o
que é facto é que os pós modernos também, não sabEM muito bem o que querem, Para
os pós-modernos a história feneceu, o lazer é um mero cirenaísmo, a filosofia
um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Não existe
distinção entre urgente e importante, acidental e fundamental, valores e conjunturas,
efémero e permanente.
Mas em que raio de
sociedade vivemos nós então?
Na pós-modernidade a perversão e o stress
são sintomas, do resultado da falta de lei, do tempo, e de uma ideia de futuro,
porque tudo o que era sólido se desmoronou (a crença em valores e na
esperança). “Tudo se tornou demasiadamente próximo, promíscuo, sem limites,
deixando-se penetrar por todos os poros e orifícios”, diz Zizek.
Em outros textos
já referi a necessidade da sociedade, em que vivo, voltar acreditar:
“Novo clássico cavalheiro, envia-nos as tuas
preces, nem que seja através destes novos ventos de profanação, embrulhadas na
mensagem do pescador, ou, através de uma nova ordem constitucional,
Mas que venham, imaculadamente puras e, por favor,
já agora, desprovidas até dos teus mais nobres complexos,
Novo clássico cavalheiro, envia-nos as tuas
preces, através dos raios cada vez mais pérfidos do sol, num pregão de um
cauteleiro, ou através do anuncio da chegada de um amolador,
Mas que nos cheguem sem os habituais emaranhados
de intrigas passadas, que nos cheguem sãs, como se fossem as primeiras.
Novo clássico cavalheiro, faz-nos crer,
repetidamente, que nem sempre não existimos, que nem sempre não temos
importância.
E com o teu poder, com toda a tua virtude,
ressuscita a benevolência dos tempos, que da tua bondade fruímos; e pela graça
de todos, ressuscita, uma vez mais em nós, também, o poder das orações.
Novo clássico cavalheiro, por favor
Faz-nos crer!”
Eu gostava de acreditar que o mundo não vai acabar amanhã! Mas, tal como
os animais que auguram a iminente catástrofe, sentimos, também, nós que o fim
último está próximo.
Para que tal não aconteça precisamos de abandonar este traumático
pós-modernismo e criar um novo movimento, antes que este seja efectivamente o
último dos períodos e que se perca em definitivo toda a historicidade.
É isso, que pedem os jovens que protestam nas ruas, eles não pedem só um
emprego, antes, pedem esperança, pedem o retorno dos valores, pedem ordem,
pedem rotinas de sociedade, pedem fé!
Dizem os orientais que Crise é oportunidade, mas será oportunidade de
comprar casas e automóveis ao desbarato, ou a grande oportunidade, para de
facto ajudar alguém?
Mas para ajudar alguém, devemos estar próximos, devemo-nos sentir e querer
sentir próximos, para assim nos acercarmos das necessidades do nosso
semelhante.
Mas como é que nos vamos voltar a reaproximar dos nos concidadãos?
Eu acho que devíamos, ferreamente, ressuscitar, o velho “bons dias” (com
sorriso claro! E não entre dentes como muitos de vós dão!), porque quem dá os
bons dias, transmite um desejo positivo a terceiro; porque aproxima a pessoas
uma vez que dá oportunidade de alguém “meter” conversa, e quem conversa sabe
algo do outro, quem conversa sabe que as suas frustrações não são, assim, tão
originais.
“Eu dou os bons dias a pessoas que não lhes conheço o nome, e em troca
recebo um sorriso, que me alimenta o dia” dirão vós um dia se perderem o medo
de voltar a dar os bons dias!
Eu acho, sinceramente, que só os bons dias irão acabar com os taciturnos
dias do pós-modernismo, e darão lugar a dias bem mais cheios na nossa vida.
Quem não quiser acreditar, que acredite por exemplo no Pai Natal, no nosso Primeiro Ministro, que o nosso querido Sporting vai ser campeão em breve, que o PEC é mesmo necessário para se conseguir receitas para fazer o TGV….etc..etc.

Apeteceu-me escrever. Escrever sobre algo mais do que o real, do que está ao meu alcance. Sentei-me e escrevi.
Mas quanto mais escrevia, mais os sentimentos se aprofundam e controlavam o meu corpo, marioneta sem destino. Os sentimentos, como que lanças balísticas que pelo meu ser atravessam, tomavam conta de mim. A ferida era agridoce: o sabor delicioso de te ver finalmente, após tanto tempo de espera, mas amargo das palavras que não te disse, que nunca tive coragem, ou, até, a ousadia de te esclarecer, de tudo. Mas isso não é suficiente.
Perduram as danças, os ritmos, as sombras de luz. Tudo é constante. No entanto, tudo é supérfulo, passou a sê-lo. Construiu-se uma barreira imensa, conhecida como Medo, que me impedia de chegar a ti. Esse Medo era não mais que uma ilusão criada por mim mesmo, um engodo. E é isso que me entristece. Fui eu que me afastei de ti. Eu próprio, a encarnação do Medo, a tal muralha, afastei-me da tua luz, do teu ser. Contigo, tudo era possível; sem ti, nada o é.
Tudo. Tudo isto que vês, que lês, têm a minha marca. Uma marca indelével, com borrões, na tua mente. A culpa? Inteiramente minha.
A distância aumentou-se. Aumentou-se o precipício mortal que nos separa. Um passo à frente é a opção a dar, passo que o Medo não permite cumprir. Mas EU sou o Medo, eu sou o comandante do meu destino.
Dou o passo e caio nos abismos do teu amor. A sensação, desta vez, é inteiramente doce. A queda foi amortecida pelos teus lábios que me salvam. Deixei cair as cortinas que me vendavam e entrego-me ao Mundo, como sou, como tu precisas que eu seja, como tu me fizeste ser. Completo. Único. Amado. EU.
…
Paro de escrever. Meto as reticências numa história inacabada; não com o receio do Medo voltar, mas com a certeza do Amor me atingir com ainda mais força.
José Moniz
Pessoal, pura e simplesmente, são 1.30h da manhã e eu não consigo dormir. Por isso, decidi escrever. E deu-me para o romântico. A criatividade da noite…Happy? ![]()
Não tenho nada para fumar.
Sem o cigarro nunca serei nada.
Nem nunca poderei querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Das janelas do meu quarto, o único sítio fechado onde me é permitido fumar,
Sou do meu quarto, mais um dos milhões de fumadores do mundo que ninguém
sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam? O que fariam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente pisando beatas
Para uma rua inacessível a todos os fumadores,
Porque é real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, a lei que
proibiu o tabaco em recintos fechados.
Como o mistério das coisas por baixo dos decretos e das lei,
Assim, como a morte por cancro nos pulmões em homens que ainda não tenham os
cabelos brancos,
Ou, com o Destino a conduzir um Ferrari que não tive pela estrada do nada.
Estou hoje vendido, como não soubesse a verdade.
Estou hoje resplandecente, como se estivesse para renascer,
E não tivesse mais a certeza das coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, que degolará este e outros Governos
Partindo dentro da minha cabeça,
Provocando uma sacudidela dos meus nervos a quem não Governa nada.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu, que de lei os homens
nada sabem.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo às normas e,
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, que posso continuar a fumar em todo o lado,
pois,
Recalco, que de leis os homens nada sabem.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
Pois a aprendizagem que me deram, das coisas, também ela não foi nada,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e beatas,
E quando havia gente era igual à outra, todos fumavam em silêncio, todos
pensavam em nada,
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Sem mais deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando,
Quanto mais não seja para contestar, as
vagas leis dos homens vagos, que nelas não depositaram nada!
O Barrascos 09-03-2011

Os dias passavam, embora o Sr. J., não visse qualquer movimento na estação, apercebia-se de alterações nesta, pois nas horas em que as estações são mais movimentadas, escutava algumas vezes no carril em que detinha a sua atenção, sons que pareciam de passageiros em trânsito, esse facto fê-lo, em algumas ocasiões, olhar atentamente para o cais da estação, mas constatou que este estava sempre vazio, como que um quadro fixo sem movimento, em um único momento pareceu-lhe por propagação do som nos carris, escutar que existiam atrasos nas ligações, o que o fez abandona-los, brevemente, para indagar junto do funcionário da estação que lhe vendeu o bilhete se de facto se confirmava o atraso.Pelo que ao chegar junto da bilheteira inquiriu:- Por favor! O Senhor é capaz de me elucidar se foi anunciado algum atraso relativamente ao comboio que espero?O funcionário da estação encontrava-se atrás de um vidro imaculadamente limpo e translúcido o suficiente para não lhe deixar ver as suas feições, ainda assim permitia visualizar uma silhueta de um gigante volumoso, não porque fosse gordo, mas antes robusto, que se encontrava sentado e completamente imóvel no seu postigo. Sr. J. bem que esperou por uma resposta mas o silêncio que imperava naquela estação era sepulcral. Os minutos passaram e não existia qualquer sinal de obter resposta à sua pergunta. Pelo que uma vez mais, desta feita num tom de voz mais elevado, voltou a perguntar:- Por favor! Sabe dizer se existe algum atraso nos comboios? Estranhamente reparou J. que o som daquelas palavras que deveria ter ecoado naquela estação completamente vazia, cuja configuração asseguraria de certeza um belo eco, na verdade foi absorvido por algo antes mesmo de embaterem nas paredes, parecia-lhe que a ele não era permitido deixar qualquer memória da sua vida que perdurasse no tempo, nem mesmo o efémero tempo que leva a ecoar uma palavra.
Em situações normais, J. ficaria especado a esperar pela resposta, mas, sem saber porque tinha procura-la, até porque não tinha certeza da pergunta que havia formulado, pois poderia estar equivocado, e aquilo que lhe parecia ser o anúncio de um atraso, poderia ser uma outra coisa qualquer, mas ainda assim, mesmo sem sustentação para a sua pergunta, e ao mesmo tempo, sem equacionar minimamente que resposta poderia advir a uma pergunta, aparentemente, certamente, decididamente, sem qualquer tipo de sustentação e mesmo sem saber qual a necessidade que tinha de perguntar. Chegando mais perto do pórtico da bilheteira, debruçando-se junto ao mesmo, de modo a visualizar o funcionário pela abertura do vidro e acercar-se do motivo pelo qual este não havia retorquido aquando da sua inquirição. Quando consegue espreitar através da abertura vê um gigante bastante moreno de cabelo preto corvo com uma expressão corporal completamente rígida e imóvel, com os seus olhos negros fixos detidos num qualquer ponto infinito e distante. Mas em contrapartida embora inequivocamente os seus braços repousassem sobre o tampo do móvel que lhe servia de secretária, ao mesmo tempo existiam como que laivos da existência de outros mais quatro braços que se agitavam a uma velocidade enorme, freneticamente, cada um com uma função específica. Embora a enorme velocidade com que cada um deles dificultasse a percepção da sua função, conseguia-se ainda assim sem dúvida alguma percepcionar função de cada um deles pelos utensílios que manejava. Tal como um enorme carimbo, uma enorme esferográfica, uma descomunal máquina de emitir manualmente bilhetes, uma gigantesca tabela de horários, todos estes objectos eram manejados individualmente, como se cada braço tivesse uma inteligência própria e independência funcional em relação aos movimentos perpetrados pelos outros, tudo numa enorme agitação funcional e ao mesmo tempo de exemplar competência desvairada.
Sem esquecer não tinha tido qualquer resposta à sua pergunta, ainda assim J., era incapaz de voltar a efectuar, em virtude do efeito hipnótico, que a movimentação do funcionário a si lhe provocava. Estranhamente, toda aquela agitação não produzia qualquer som. O silêncio na estação imperava, até que foi interrompido pelos altifalantes que estavam espalhados pelo átrio da estação. Primeiramente por um som estridente, ao qual se seguiu novamente, durante alguns momentos, o silêncio absoluto, a que se seguiu o som de várias harpas tocadas em absoluta desarmonia, embora resultasse a final num agradável padrão sonoro, sempre variável na sua melodia, embora voltando mais tarde sempre à sua primeira forma. Quando nada o fazia esperar, sem aviso, do elevado tecto da estação começam a cair minúsculos bonequinhos, pequeninos, com diversas formas, mas que faziam lembrar toda a espécie de objectos que decoram as árvores de natal, desde anjos a comboios sorridentes, coelhos e pequenas renas, duendes e bolas de decoração com múltiplas cores, que caiam bem devagar e que ao chegar ao chão se desintegravam em mil cores, para voltarem a surgir novamente na clarabóia da estação, para uma vez mais voltarem a cair. A visão era aterradoramente incrível de uma beleza estonteante, pois as figuras ao caírem devagar parecia que dançavam ao som da melodia produzida pelas harpas. - Lindo, desde criança que não vejo coisa mais bonita, disse J. ao atarefado funcionário da estação, que continuava a olhar em frente sem qualquer reacção embora os seus múltiplos braços se continuavam a mover à velocidade da luz.Uma vez sem resposta alguma do curador da estação, J. afastou-se do postigo, e deu dois passos em direcção às figuras que continuavam a suavemente a dançar até se desintegrarem no chão, quando sem mais, deixa-se de ouvir a melodia produzida pelas harpas desencontradas e começam-se a ouvir vozes ainda mais aflautadas do que a das crianças, como que a aquecer a voz para uma qualquer récita. Cantando em incerto uníssono o seguinte refrão:
-Deus sabe, tu sabes, que criar-te asas será fácil, o teu destino é aqui, no céu em paz, pois a paz na terra só se consegue no aconchego de uma campa!
Cristina Flora, mais do que uma querida amiga, é uma competente e talentosa colega no jornalismo e na literatura. Autora de três romances publicados («A Saudade do Rei», «A Inconstância dos Teus Caprichos» e «Leva-me Esta Noite»), é também uma dedicada contista, disso sendo talvez o melhor exemplo (e o mais conhecido) o que escreveu para «A República Nunca Existiu!», intitulado «A Rainha adormecida», que aliás fecha (com «chave de ouro») o primeiro volume daquela antologia.
Disponível para novas experiências, e sem paciência para esperar pelas respostas de editoras cujas preferências e critérios editoriais são muitas vezes incompreensíveis, Cristina Flora decidiu no ano passado criar uma nova página no Facebook: Contos On-Line, um autêntico «jardim digital» onde tem cultivado «flores e frutos» narrativos, pequenos mas «nutritivos», que dão por nomes como «O dilema do Capuchinho Vermelho», «O feitiço pink» e «Tempo divino» - enredos que (confirmando o estilo da autora) têm o amor como tema central e em que o «fantástico», em vez de «inquinar» a realidade com ideias e situações insólitas, integra-as para assim mais a enriquecer e a fortalecer. Boas leituras!
Octávio dos Santos
UM CIDADÃO BEM INFORMADO LÊ OS JORNAIS E VÊ TELEVISÃO!
A SEGUIR DROGA-SE!

Assinei hoje a petição/carta aberta «À Senhora Ministra da Cultura do Governo de Portugal» sobre a realização de «uma outra exposição, esta de arte contemporânea, intitulada “D’Après Nuno Gonçalves”, e compreendendo as vertentes de pintura, escultura, instalação, vídeo e fotografia» no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Quem quiser fazer o mesmo deve ir aqui.
…. Definitivamente que Portugal, cuja maioria dos eleitores continua a dar vitórias claras a Pinto de Sousa e a Cavaco Silva mesmo quando já há um conhecimento completo das suas execráveis personalidades e comportamentos, merece todo o mal que lhe acontece.
Octávio dos Santos
… Enviada por correio electrónico a 11 de Janeiro de 2011.
Eu e a minha esposa, (…), que era sócia da DECO com o número (…), decidimos dar por terminada a nossa ligação à vossa associação, que durava há já quase 20 anos. Essa nossa intenção foi comunicada por um telefonema que eu fiz no passado dia 3 de Janeiro para a vossa sede, a que correspondeu a vossa carta com data do mesmo dia, confirmando «o cancelamento da sua subscrição das revistas, com efeitos no final do trimestre». Enfim, hoje procedemos, junto do nosso banco, à anulação da autorização de transferência bancária pela qual eram pagos os custos das assinaturas da Proteste e da Dinheiro & Direitos.
O telefonema acima referido não chegou a constituir uma ocasião, e uma oportunidade, para explicitar a justificação desta nossa decisão. Como a consideramos relevante, serve esta mensagem para a apresentar: trata-se da adopção, em todas as vossas «publicações e suportes», do denominado «acordo ortográfico» a partir de 2011. Só essa iniciativa já seria suficiente para causar o nosso repúdio, mas a nossa indignação foi consideravelmente aumentada pela leitura do texto do vosso direCtor e editor Pedro Moreira, incluído na edição Nº 103 da revista Dinheiro & Direitos, página 3, e em especial o seguinte excerto: «(…) Poupamos nas letras para melhor servirmos o consumidor português. Poderíamos fazê-lo só em 2015, quando o acordo passa a ter força de lei. Mas com o alargamento da nova grafia a vários jornais e revistas, e ao ensino já a partir do próximo ano, queremos ser muito mais do que espetadores da mudança. Uma organização como a DECO PROTESTE promove a linguagem simples e próxima do leitor, mas sobretudo o respeito pela língua portuguesa. (…)»
Na verdade, não se promove o respeito pela língua portuguesa ao ser-se cúmplice consciente da sua adulteração artificial, inútil, prejudicial e, acima de tudo, ilegítima: não restam quaisquer dúvidas de que a maioria esmagadora do povo português está contra o «acordo ortográfico» - uma petição com quase 200 mil assinaturas demonstrou-o. A Assembleia da República e o(s) Governo(s) nunca foram mandatados para o ratificarem. Não seria este um tema merecedor de referendo? E, mais do que um assunto de carácter cultural fundamental, e definidor da identidade e da personalidade de um país, a alteração da ortografia pode e deve também ser entendida como um tema relativo à defesa do consumidor, ao dinheiro e aos direitos daquele.
É por isso que, nesse sentido, a DECO, inacreditavelmente, falhou: não realizou a investigação e não promoveu o esclarecimento relativos às causas e às consequências do «acordo ortográfico», com todas as suas (graves) implicações aos níveis comunicacional, logístico e financeiro, e que afectam indivíduos, famílias, empresas e outras entidades. O AO é uma «solução», uma «resposta» para um problema que não existe, e afirmo-o enquanto entendido na matéria: a valorização e divulgação da língua e da cultura portuguesas, ou lusófonas, passam por outros processos que não a «uniformização» (uma palavra que, só por si, deveria suscitar suspeita) da ortografia. O AO é um factor que vai debilitar ainda mais uma já muito debilitada sociedade civil.
A conclusão é inevitável: ao adoptar o «acordo ortográfico» em todas as suas «publicações e suportes», a DECO está a fornecer, deliberadamente, produtos e serviços defeituosos e deteriorados. E, perante esta situação, limitamo-nos a fazer o que, durante as últimas décadas, a DECO nos incitou a fazer. Denunciar. Protestar. Reclamar. Devolver, e/ou deixar de adquirir, esses mesmos produtos e serviços defeituosos e deteriorados. E, desde o princípio deste ano, vocês passaram a não ser a «escolha acertada» e a estar entre os «piores do teste».
Octávio dos Santos